Recife, 08 (AE) - O governador Jarbas Vasconcelos (PMDB) garantiu hoje que não vai tolerar saques de trabalhadores sem-terra no Estado sob nenhum pretexto. "A minha polícia vai reprimir qualquer ação desse tipo", afirmou, ao qualificar os saques como "coisa de bandido". "Os sem-terra estão assaltando o interior do Estado e daqui a pouco vão assaltar supermercados e bancos", afirmou. A disposição de combater os saques, segundo ele, já foi demonstrada com a prisão de 24 trabalhadores rurais que participaram do roubo a caminhões, na segunda-feira, em Orocó e Santa Maria da Boa Vista, no sertão do São Francisco.
O líder estadual do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), Jaime Amorim, disse que o movimento não se intimida com a ameaça do governador. "É uma ingenuidade política do governador querer reprimir saque com polícia", afirmou. "Quanto mais violência e repressão, mais revolta, e o problema não se resolve". Os sem-terra foram autuados em flagrante, acusados de assalto e formação de quadrilha, e estão presos na Cadeia Pública de Petrolina, a 774 quilômetros do Recife. Amorim assegurou que se os sem-terra continuarem sem receber as cestas básicas do governo federal - suspensas desde maio - os saques vão voltar a ocorrer.
"Saque, como ocupação de terra, não pode ser tratado como caso de polícia, é uma questão social", afirmou. "O saque é uma questão ainda mais delicada, porque envolve gente que luta pela sobrevivência, gente que já esgotou todos os meios de conseguir alguma renda". Negociação - De acordo com a secretária estadual de Imprensa, Terezinha Nunes, o governo está aberto a negociações e tem mantido contato com os sem-terra, através dos secretários do Desenvolvimento Social e da Produção Rural, tendo assinado um contrato, semana passada, com dois órgãos estaduais para a eletrificação de 39 acampamentos do MST na zona da mata. Ela afirmou que o governador está sendo coerente ao reprimir os saques, já que garantiu isso durante a campanha eleitoral e fez várias críticas ao seu antecessor, o ex-governador Miguel Arraes (PSB), que, conforme disse, fechava os olhos para os saques realizados no Estado. Jaime Amorim, porém, disse que mesmo sendo tolerante o governo Arraes prendeu 92 sem-terra que participaram de saques no ano passado.
Drogas - Além de ter recuperado grande parte dos produtos saqueados pelos sem-terra na ação simultânea de segunda-feira - com saques em municípios de todas as regiões do Estado - a polícia está investigando a descoberta de 30 quilos de maconha pronta para consumo nas imediações do acampamento do MST em Orocó. A droga estava perto dos sacos de açúcar saqueados, no meio da caatinga. O delegado regional de Petrolina, Joel Venâncio, disse que a apuração deve ser iniciada através de Lucas Antônio dos Santos, um sem-terra que já respondeu por tráfico.
Hoje, integrantes do MST e representantes de entidades de direitos humanos que estavam defronte ao Palácio da Justiça, aguardando o julgamento do habeas corpus em favor de cinco sem-terra, deixaram o local frustrados. Pela segunda vez o julgamento foi adiado. Os sem-terra estão presos há seis meses acusados do roubo de bodes durante uma ocupação de terra.

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