O governador de Roraima, Neudo Campos (PPB), culpou ontem em Boa Vista o governo federal pela gravidade dos danos causados pelo incêndio no Estado. A Secretaria de Políticas Regionais não deu atenção ao problema de queimadas no Estado quando ainda era possível controlar a situação e o ex-secretário Fernando Catão não cumpriu a determinação do presidente Fernando Henrique Cardoso de liberar recursos, acusou o governador. ‘‘Algum problema político está atrapalhando o envio de ajuda’’, disse Campos.
O fogo, antes concentrado nas regiões dedicadas à agricultura, as chamadas áreas de lavrado, já atinge parte da reserva dos índios ianomami, onde o rio Mucajaí, usado pelos grupos indígenas, está completamente seco. O maior temor do governo é o alastramento do fogo pela floresta, como já acontece em diversas regiões do Estado.
Em Cachoeira da Missão, na divisa entre a reserva dos índios ianomami e a vila de Apiaú, o fogo se espalhou por quase 20 quilômetros e está uma perto da primeira aldeia, a Missão Mucajaí. ‘‘Se der um vento muito forte ou o fogo continuar nesta intensidade, em uma ou duas semanas o incêndio chega aos índios’’, calcula um piloto do governo.
Ao redor de várias casas na aldeia já existem sinais de queimadas, provocadas pelos próprios índios para o cultivo de mandioca. As autoridades temem que, por causa da seca, o fogo se alastre, como aconteceu em outras regiões do Estado e na reserva dos índios macuxi e apixana, ao sul. Perto do município de Pacaraima, 819 famílias - a maioria de índios - perderam as casas e as roças. O rio Mucajaí, que passa na reserva ianomami, está praticamente seco o que torna impossível a navegação, meio de transporte muito usado pela população local.
O problema estava sendo discutido ontem entre o governo do Estado e um representante do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), mas a solução não parece próxima. ‘‘O Ibama diz que está estudando o problema das queimadas aqui’’, diz o governador. ‘‘Enquanto eles estudam, o fogo vai avançando.’’
Neudo Campos reclama que o Ibama não achou necessário o aluguel de 22 helicópteros de uma empresa venezuelana, especialista em combate a incêndio. ‘‘Deixei por conta deles e quero ver o que será feito.’’ Para tentar enfrentar os danos do incêndio em Roraima, o governo federal vai liberar, amanhã, R$ 2 milhões, um décimo dos R$ 20 milhões solicitados pelo governador Neudo Campos, há 50 dias. ‘‘Não tenho dúvida: se fosse São Paulo ou Rio de Janeiro, a situação já tinha sido resolvida pela Secretaria de Políticas Regionais’’, reclamou Campos.
Campos informou que o dinheiro liberado pelo governo federal será usado para pagar apenas uma parte das dívidas contraídas pelo governo nos últimos dois meses. ‘‘Nós tivemos que construir seis mil poços artesianos e isso custou muito mais que a ajuda que estamos recebendo.’’
Ontem, começou a distribuição de 30 mil cestas básicas para as famílias que perderam toda a plantação no incêndio, mas muitas, apesar de afetadas diretamente pelo fogo, não querem deixar suas terras. ‘‘Vou dormir na casa do vizinho, mas, no dia seguinte, volto para cᒒ, diz o agricultor José Vilson Onofre Ramalho, que perdeu uma casa de fabricar farinha de onde obtinha, por dia, uma renda diária de R$ 45,00. ‘‘Em toda minha vida nunca vi coisa igual a esta’’, diz Ramalho. ‘‘A velocidade do fogo é tão grande que parece haver combustível espalhado pela floresta’’, comentou.

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