Rio, 16 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho, afirmou que o conflito ocorrido ontem (15) no Túnel Santa Bárbara, em protesto contra a morte do menino Rodrigo Marques da Silva, de 15 anos, foi provocado por pessoas ligadas ao tráfico do Morro da Coroa, em Santa Teresa, na zona sul. "O governo se prontificou a ir à comunidade, instalou no local um posto da Secretaria de Segurança e eu próprio enviei um representante para conversar com a família", enumerou. "Portanto, foi uma ação do tráfico de drogas do local querendo intimidar o governo."
No final da tarde de sábado, moradores da favela fecharam o Túnel Santa Bárbara, armando barricadas, logo depois do enterro de Rodrigo, morto na sexta-feira por um sargento identificado apenas como Mota, do 1º Batalhão da PM, durante operação no Morro da Coroa. Foi o quarto protesto de moradores de favelas, em uma semana, por causa da mortes em ações violentas da polícia.
A família do garoto e a presidente da Associação de Moradores da Coroa, Clátia Regina Vieira, repudiaram as suspeitas do governador. "Se eles sabiam que eram traficantes, por que a polícia demorou a agir, ficando de braços cruzados?", questinou Clátia. "Eles foram então, no mínimo, coniventes."
Clátia admitiu que houve excesso dos moradores durante a manifestação. "Mas, se o governador, que tem o poder da caneta, não tem controle sobre o seu próprio comando policial, imagine nós, que temos que cuidar de 400 pessoas", argumentou.
Ocupação - Garotinho disse hoje, ao sair de um culto evangélico, que está estudando a ocupação social - nos moldes das que foram realizadas nas favelas do Pereirão e do Dona Marta
na zona sul - nas três comunidades onde houve conflitos nesses últimos dias: Coroa, Mangueira e Cidade de Deus. Mas não detalhou como nem quando isso seria feito. "Não vamos nos precipitar, nem também anunciar as coisas que temos de fazer."
Para ele, o governo está sofrendo dois tipos de pressão. Uma, interna, viria dos policiais civis e militares. "Eles estão acostumados há muitos anos a viver numa cumplicidade com o tráfico de drogas", apontou. Como exemplo, Garotinho citou o que aconteceu na Mangueira, quando foi morto, na sexta-feira, o estudante Alex Sandro dos Santos, de 14 anos. "Os policiais civis foram lá para receber a semanada dos traficantes, não os acharam e mataram o irmão de um deles, um menino de 14 anos que não tinha nada com isso."
Um segundo exemplo seria o fato de, nas manifestações dos moradores da Coroa e da Mangueira, terem sido queimadas carcaças de automóveis. "O governo fechou uma série de ferro-velhos para combater o roubo de automóveis e constatou em todos eles a presença de policiais", contou.
A outra pressão, segundo o governador, vem do tráfico. "Eles estão se sentindo acuados, porque estamos deixando claro que não há área dominada na cidade, seja a Avenida Atlântica, a Mangueira ou a Coroa", disse.
Indenização - À tarde, o subsecretário de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, foi ao Morro da Coroa para tomar depoimentos da família de Rodrigo e de testemunhas do assassinato do garoto. "O senhor tem que dar jeito na polícia, porque eles não tratam a gente como ser humano", interveio desabafou o pai do garoto, Sérgio Lopes.
Soares disse que o Estado poderá pagar indenização por danos morais às famílias dos meninos mortos na Coroa e da Mangueira. "Não podemos ser precipidados, mas o governador já nos orientou a fazer isso", afirmou.
Apesar de o próprio Garotinho ter se referido a pressões de policiais, o subsecretário descartou a possibilidade de que as operações violentas nos morros sejam represália de setores da polícia descontentes com a política de segurança. "Foram casos isolados", afirmou o subsecretário.
Ele afirmou que a Polícia Militar vai agir com rigor e usando a força, caso se repitam incidentes como os de sábado. Segundo o subsecretário, o fato foi completamente diverso do ocorrido no Morro da Mangueira na véspera.
"Na Mangueira, foi uma ação imediata da população, que reagiu positivamente à nossa proposta de encaminhar o problema"
explicou. "No Morro da Coroa, um setor da comunidade agiu à revelia da família da vítima e das lideranças locais."
O subsecretário participou, pela manhã, de uma caminhada pela paz na orla da zona sul, onde voluntários recolheram assinaturas para o abaixo-assinado que pede a proibição da venda de armas no País.

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