Gore quer se distanciar de Clinton para ser presidente Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 22 (AE) - O voto de desempate que o vice-presidente Albert Gore deu na quinta-feira passada, como presidente do Senado dos Estados Unidos, garantiu a passagem de um projeto de lei que dificulta o acesso a armas de fogo e colocou Gore no lado vitorioso de uma discussão que os tiroteios em escolas americanas já transformaram num dos temas quentes da incipiente campanha presidencial.
Com as pesquisas de opinião a indicar uma nítida mudança do sentimento do público a favor de medidas restritivas ao comércio de armas, Gore disse que a votação no Senado marcou "uma virada no país", impondo uma dura derrota ao poderoso e até agora invencível lobby das armas nos EUA.
Para Gore, o favorito entre os democratas para concorrer à sucessão de Bill Clinton, no ano que vem, este foi o primeiro bom momento numa campanha que até agora não empolgou nem seus correligionários de partido e já passou por sua primeira grande crise oito meses antes das primeiras prévias eleitorais, nos estados de Iowa e New Hampshire.
As sondagens, que colocam o vice-presidente cerca de 20 pontos atrás de seu mais provável contendor republicano, o governador do Texas, George W. Bush, já eram fonte de preocupação há semanas entre os partidários do vice-presidente. Os 35% de apoio que os democratas dão ao ex-senador William Bradley, de Nova Jersey, o único outro contendor à candidatura do partido à Casa Branca , é visto com sinal adicional da vulnerabilidade do vice-presidente.
Dez dias atrás, o próprio presidente Bill Clinton encarregou-se de tornar pública a inquietação dos democratas. Informado de que o New York Times estava preparando uma matéria sobre as dificuldades da campanha de Gore, Clinton telefonou para o repórter encarregado para contar que havia aconselhado o vice, famoso pela falta de jogo de cintura e o tom professoral, a relaxar e ser mais comunicativo em seus contatos com eleitores.
Surpreendido pela iniciativa de Clinton e claramente desapontado, Gore foi forçado a reconhecer as críticas e passou o recibo iniciando a primeira operação de controle de danos de sua campanha. No dia seguinte, nomeou o ex-deputado Tony Coelho, um descendente de portugueses que representou a Califórnia na Câmara de Representantes nos anos 70 e 80 e deixou a política para ganhar dinheiro em Wall Street. Além de coordenar a arrecadação das dezenas de milhões de dólares em fundos para a campanha, Coelho terá a delicada tarefa de administrar as relações entre a campanha de Gore e a Casa Branca durante a batalha eleitoral.
George Stephanopoulos, o ex-conselheiro político de Clinton e atual comentarista da rede de televisão ABC diz que não será fácil. "A dificuldade é que Clinton é e se vê como o chefe da campanha de Gore, como mostram suas declarações ao New York Times, e depende da eleição de seu vice para poder reivindicar um legado político", disse ele. "Para Gore, o interesse em associar-se a Clinton limita- se à economia, pois, no restante, sua estratégia precisa ser a de mostrar que ele é diferente de Clinton".
Gore confirmou a análise do ex-assessor presidencial numa entrevista que deu para uma reportagem de capa da revista Newsweek - parte de seu esforço de controle de danos. Perguntado que papel gostaria de ver Clinton desempenhar em sua campanha, o vice- presidente deixou claro que dispensa a ajuda. "Como presidente, ele tem um trabalho de tempo integral, que está realizando extremamente bem", disse Gore.
A arma de Gore para diferenciar-se do desacreditado Clinton é Mary Elizabeth Aitcheson Gore, sua mulher, mais conhecida pelo apelido "Tipper". É ao lado dela que ele apareceu na capa da Newsweek. É Tipper - e não Clinton - que o vice-presidente aponta como "minha conselheira mais próxima, minha melhor amiga, a pessoa cujo discernimento e coragem mais admiro e tenho como exemplo".
Ciente de que sua lealdade política a Clinton pode fazer com que ele pague, nas urnas, pelo comportamento do presidente e o vexame a que sujeitou o país no caso Lewinsky, Gore já começou a enfatizar sua fidelidade à mulher para diferenciar-se do seu parceiro político dos últimos seis anos e meio. "Juntos, nós gozamos a vida imensamente, sou uma pessoa melhor quando estou com ela e, se o povo americano me escolher presidente, serei um melhor presidente com ela", diz Gore. "Um dos segredos de ser próximo é compartilhar os mesmos valores, ter os mesmos objetivos - família, fé, ser bons país, ser bom para o outro, ser fiel ao outro e compartilhar as experiências da vida". Gore e Tipper têm quatro filhos e estão esperando o primeiro neto.
Uma mulher simpática e extrovertida, Tipper Gore é um ativo importante para a campanha do marido também para ajudar a suavizar a imagem pública de robô político do vice-presidente, um político preparado e talentoso, que os amigos dizem ser também um grande contador de piadas, principalmente sobre si próprio, mas que é incapaz de transmitir humor ou emoção em público.
Para tirar sua campanha do buraco, Gore já começou a testar idéias de programas que defenderá na campanha para estabelecer sua própria identidade política e poder dizer que não é um mero arauto do continuísmo. No domingo passado, ele apresentou os primeiros contornos de um programa educacional que garantiria escola a qualquer americano interessado a estudar - do pré-primário ao último ano da universidade.
Sobre sua posição das pesquisas de opinião, Gore diz que ainda é muito cedo na campanha e que, hoje, os números não têm maior significado.
Por atraentes que sejam suas idéias, por simpática que seja sua mulher, por maior que seja sua competência política e por excelente o estado da economia, a história conspira contra Gore. Dez vice- presidentes dos EUA chegaram à Casa Branca, mas pouco receberam a promoção ao posto máximo concorrendo como número dois. Em.1988, o republicano George H. Bush, pai do rival mais provável de Gore no ano que vem, tornou-se o primeiro vice a eleger-se presidente em mais de 150 anos. Os historiadores explicam a relutância dos americanos em promover vice-presidentes ao posto máximo pelo desejo natural de mudança, especialmente depois de administrações de oito anos e de presidentes emocionalmente cansativos para o país como Bill Clinton.
Com suas qualificações para ser presidente ainda um mistério para a esmagadora maioria dos americanos, a popularidade de George W. Bush reflete esse desejo de mudança, contra o qual talvez não haja nada que Gore possa fazer.





