Gore lança-se candidato distanciando-se de Clinton Do correspondente PAULO SOTERO
Washington, 16 (AE) - Onze anos depois de ter feito sua primeira tentativa de chegar à Casa Branca, o vice-presidente Albert Gore oficializou hoje (16) sua candidatura à sucessão de Bill Clinton com um discurso no qual procurou, ao mesmo tempo, estabelecer sua independendência em relação ao atual presidente e colocar-se como o co-autor de sua bem sucedida estratégia econômica, que deu aos americanos o mais longo e vigoroso período de expansão do PIB em tempos de paz e o mais baixo índice de desemprego em trinta anos.
Com cerca de US$ 30 milhões em caixa e uma máquina política já montada e em pleno funcionamento, Gore, de 51 anos, enfrenta apenas um desafiante à indicação do Partido Democrata à presidência, o ex- senador Bill Bradley, de Nova Jersey. Embora tenha grande vantagem sobre Gore nas pesquisas de opinião, o favorito entre os republicanos, o governador do Texas, George W. Bush, têm dez concorrentes e busca a liderança de um partido dividido, que viu sua maioria no Congresso encolher nas duas últimas eleições.
"Com sua ajuda, eu levarei os meus próprios valores, minha fé e família à presidência para construir uma América que não é apenas mais rica, mas melhor", disse Gore, diante do tribunal de Carthage, sua cidade natal no Tennessee, cercado pela mulher, Tipper, e os quatro filhos, a mais velha dos quais, Karenna, dará o primeiro neto ao vice-presidente ainda este mês.
Gore afirmou que fará da "crise na família americana" um dos temas centrais de sua campanha à Casa Branca - uma maneira de não apenas diferenciar-se e distanciar-se de Clinton, que teve sua reputação pessoal arruinada pelo escândalo Lewinsky, como também de não conceder o campo moral da batalha eleitoral a seus adversários republicanos.
"A crise na família americana hoje não reconhece fronteiras de raça ou classe", afirmou ele. Para o vice-presidente, ela se manifesta no aumento do número de lares onde apenas um dos pais - geralmente a mãe - está presente, no fato de que os casais que permanecem juntos ( 50% se divorciam) trabalham cada vez mais e vêem seus filhos cada vez menos, e em tragédias como os tiroteios em escolas.
Em entrevistas à televisão e em conversas com jornalistas, o vice- presidente disse que "como pai", considera "imperdoável" o fato de Clinton ter-se envolvido sexualmente com a ex-estagiária na Casa Branca, Monica Lewinsky. Gore revelou que as relações pessoais entre eles sofreram com o escândalo, porque Clinton "mentiu para mim como mentiu para todo mundo".
Ele acrescentou que o escândalo, que resultou no segundo julgamento de impeachment de um presidente americano, "desperdiçou tempo" que o governo poderia ter dedicado às questões do interesse público. O vice-presidente afirmou também que não vacilará em discordar publicamente de Clinton em questões de substância se divergir do presidente.
Além de tentar imunizar-se contra o efeito de fadiga política que os americanos manifestam em relação a Clinton, Gore terá que se preocupar também com o impacto sobre sua campanha da mais do que provável candidatura da primeira-dama, Hillary Clinton, ao Senado por Nova York, o estado com o segundo maior contingente de votos no colégio eleitoral que, tecnicamente, decide o pleito para a Casa Branca.
Um ex-jornalista e veterano da guerra do Vietnã, Gore é filho de um ex-senador e fez carreira, primeiro na Câmara, depois no Senado, como um político centrista e moderado do sul dos EUA, defendendo posições duras em questões de defesa e segurança nacional. Mas, como senador, Gore emergiu como nome nacional empunhando a bandeira da defesa do meio ambiente. Escolhido como companheiro de chapa de Clinton em 1992, ele se tornou o mais influente vice-presidente da história americana. Nos últimos seis anos e meio, comandou um bem sucedido programa de reforma administrativa do governo e participou de todas as decisões importantes da Casa Branca.
Contra Gore pesa o fato de ser o candidato do status quo, que não é negativo por causa do esplêndido estado da economia americana, mas é sempre um elemento negativo depois de um período presidencial de oito anos. Embora vários vice-presidentes dos EUA tenham chegado à Casa Branca, raros deram o salto a partir da posição de número dois.
Outra possível desvantagem atribuída a Gore é sua suposta falta de carisma no palanque e de jogo de cintura no contato com os eleitores. Mas o vice-presidente já demoliu vários adversários em debates políticos e tem trabalhado para parecer mais simpático e menos robótico em encontros com os eleitores e mais eficaz em seus discursos.
As cerca de 8 mil pessoas que foram ouvi-lo hoje em Carthage (que tem apenas 3 mil habitantes), receberam com entusiasmo suas promessas de investir contra "a cultura de violência" dos EUA , manter o país no caminho do progresso econômico e, tendo acabado com o déficit nas contas do governo, atacar "nossos outros déficits: o déficit de decência na nossa cultura comum, o déficit de cuidados com as nossas crianças e os nossos pais e os idosos".





