Golpe poderia arruinar relações dos EUA com o Paquistão
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quarta-feira, 13 de outubro de 1999
Por Jim Lobe 
Washington, 14 (AE-IPS) - O golpe militar desta semana no Paquistão poderia arruinar os históricos vínculos do país com os Estados Unidos e estreitar as relações de Islamabad com a Índia, advertiram especialistas em ásia.
"Os indianos devem estar mais do que felizes" com a derrubada do primeiro-ministro Nawaz Sharif, que "bem poderia ser o último prego no caixão das relações entre o Paquistão e os Estados Unidos", comentou Robert Wirsing, professor da Universidade da Carolina do Sul.
Até um dos mais decididos defensores de Islamabad no Congresso americano sugeriu que mudará de posição. O senador Sam Brownback, que no ano passado empenhou-se pelo alívio das sanções contra o Paquistão, advertiu que o golpe de Estado representa um duro revés para seus esforços.
Ainda, os analistas estão preocupados com a possibilidade de os militares fazerem o Paquistão retornar a um perigoso estado econômico e a viver violentos conflitos internos, dos quais o país tendia a sair lentamente.
O comandante das Forças Armadas paquistanesas, general Pervez Musharraf, "não poderá fazer nada pela economia", previu Deepa Ollapolly, especialista em ásia meridional do Instituto de Paz dos Estados Unidos, uma organização de estratégia financiada pelo governo.
"Ele também enfrentará graves conflitos internos", acrescentou Ollapolly.
Um grande desafio para as Forças Armadas será o de "controlar os diversos grupos radicais islâmicos, pôr fim às disputas sectárias e proteger a minoria xiita", afirmou Shireen Hunter, diretora do programa islâmico do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, de Washington.
"Se não fizerem isso, certamente eles acelerarão a fragmentação do Paquistão", advertiu.
Tudo isso contribui para a frustração dos funcionários de Washington que, até esta semana, elaboravam o itinerário de um giro do presidente Bill Clinton pelo Paquistão e Índia, prevista para janeiro próximo ou início de fevereiro.
É quase certa que a visita ao Paquistão será cancelada, anunciaram funcionários do governo. Agora, Clinton deverá decidir se dará prosseguimento aos planos de visitar a Índia, o que Islamabad poderia considerar uma nova provocação.
O exército paquistanês, aliado estratégico de Washington durante a maior parte da Guerra Fria, já estava irritado com a imposição de sanções por parte dos Estados Unidos depois dos testes nucleares do ano passado.
A irritação dos militares cresceu quando Sharif, depois de reunir- se com Clinton em julho, ordenou a retirada dos combatentes que haviam invadido a zona fronteiriça de Kargil, na região de Caxemira controlada pela Índia.
"Não há dúvida que os militares e alguns círculos islâmicos sentiram que Sharif se curvou às pressões dos Estados Unidos", observou Robert Hathaway, especialista em ásia meridional do Centro Woodrow Wilson.
A moderação que Washington tem demonstrado diante dos últimos acontecimentos no Paquistão sugere claramente que o governo americano teme provocar ainda mais o exército deste país.
Desde o golpe de terça-feira, os Estados Unidos se limitaram a exortar Musharraf a restaurar a ordem democrática o antes possível.
A secretária de Estado, Madeleine Albright, advertiu na quarta- feira que o "o golpe militar do Paquistão... cria uma nova incerteza" no sul da ásia, onde Índia e Paquistão se transformaram no ano passado em potências nucleares.
Mas Washington não poderá continuar tendo relações normais com Islamabad até que seja restaurado o regime democrático, porque as leis nacionais o impedem de oferecer ajuda não humanitária a qualquer governo que tenha chegado ao poder pela força.
Além disso, os Estados Unidos devem se opor à concessão de créditos a tais governos por parte de instituições financeiras multilaterais como o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional (FMI).
Michel Camdessus, diretor-gerente do FMI, já anunciou que a agência não considerará um pedido de crédito de US$ 280 milhões para o Paquistão devido ao golpe de Estado.
Também, a Corporação de Investimento Privado no Exterior, um organismo público dos Estados Unidos que oferece créditos e seguros a empresas nacionais com interesses em países estrangeiros, advertiu que o golpe poderá afetar a capacidade da agência de "promover novas inversões diretas" no Paquistão.
Mas a maioria dos analistas tem aconselhado a administração a recorrer a uma "diplomacia tranquila" com os militares do Paquistão para evitar provocá-los ainda mais.
"Apesar de que devamos deixar claro a necessidade de se restaurar o regime democrático, temos de trabalhar com moderação para não ferir a sensibilidade" do exército do Paquistão, sugeriu Hathaway.


