Paris, 27 (AE) - A queda do presidente da Costa do Marfim, Henri Konan Bedié - no primeiro golpe de Estado no país desde sua independência -, contribuiu para revelar a nova política não-intervencionista da França na áfrica, mas mostrou também a queda de seu prestígio no continente.
O tempo dos chefes de Estado africanos que eram verdadeiras marionetes manipuladas pelos franceses, como Jean-Bedel Bokassa, da República Centro-Africana, Mobutu Sese Seko, do ex-Zaire, e agora Henri Bedié, da Costa do Marfim, parece estar chegando ao fim.
No fim de semana, antes de ser levado num helicóptero francês para Lomé, no Togo, o ex-presidente Bedié, cujo regime estava inteiramente corrompido, tentou articular uma resistência internacional com a Comunidade dos Estados Africanos, sem êxito.
O presidente destituído acabou abandonado não apenas por suas Forças Armadas e por seu povo, mas também pelo FMI e por seus amigos franceses, que se limitaram a oferecer garantias para que ele pudesse deixar o país. Os franceses negociaram sua ida para Togo evitando que fosse para Paris, onde Bedié possui um apartamento num dos bairros chiques da cidade, o 16º Arrondissement.
Quanto aos norte-americanos, estão cada vez mais presentes na áfrica, ocupando espaços onde a influência francesa já não é a mesma. A tradicional política da França, dos tempos de Charles de Gaulle, foi mantida por seus sucessores, Georges Pompidou, Giscard dÉstaing e até mesmo pelo socialista François Mitterrand. Apesar de ter interesses econômicos importantes no país (20.000 franceses vivem na Costa do Marfim), a França tem evitado intervir nos negócios internos desse país, deixando de apoiar incondicionalmente governantes que ainda se julgavam protegidos pela política anterior.
No caso da Costa do Marfim, a situação vinha-se deteriorando diante da evolução da corrupção. Documentos circulam em Abidjan sobre contas suíças de diversos membros do regime. Recentemente, parte de uma ajuda da União Européia para o setor de saúde foi desviada para três contas diferentes na Suíça.
Também dinheiro do FMI e do Banco Mundial foi desviado, levando essas organizações a suspender a liberação de outras verbas previstas para o país por falta de transparência na gestão do dinheiro, ao todo US$ 167 milhões.
Esses fatos contribuíram para acelerar a queda do regime, provocando a rebelião de jovens oficiais e soldados que já não recebiam soldo. Apesar de a revolta ter sido espontânea, o golpe vinha sendo preparado havia algum tempo.
O líder da rebelião militar, general Robert Guei, anunciou hoje que formará, até a próxima semana, um novo governo para substituir Bedié. O novo gabinete deve incluir tanto oposicionistas como ministros do governo deposto, segundo Guei.

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