Depois de vasculharem por cerca de um ano uma montanha de documentos que já atinge mais de 80 volumes e algumas dezenas de disquetes de computador, as procuradorias da Justiça Federal de Cascavel e Foz do Iguaçu, no Extremo-Oeste do Paraná, encontraram o fio da meada daquele que pode se constituir um dos maiores golpes da história recente do País. Até o final do mês passado, o Golpe dos TDAs (Títulos da Dívida Agrária) envolvia cifras que ultrapassam de longe a casa dos R$ 2 bilhões. ‘‘Os números podem chegar a R$ 5 bilhões ou mais’’, garante o procurador Antonio Celso Três. Foi ele quem descobriu, na metade do ano passado, seis meses depois de assumir a Procuradoria da Justiça Federal de Cascavel, os primeiros indícios do gigantesco estelionato.
Até onde as procuradorias conseguiram rastrear, o Golpe dos TDAs começou a ser aplicado em larga escala a partir de 1995. Desde então, já lesou milhares de empresários e tem criado confusão em um número incalculável de processos que envolvem o pagamento de dívidas públicas. ‘‘É impossível quantificar a extensão exata dos prejuízos’’, garante Três. Há pistas claras de que o golpe continua sendo aplicado em praticamente todo o território nacional. As procuradorias de Justiça e a Polícia Federal de Foz de Iguaçu, responsável pelo inquérito policial, correm contra o tempo para evitar que ele se alastre. Mas esta é uma operação complicada.
A partir de escrituras públicas, muitas vezes forjadas com a cumplicidade de cartórios, os golpistas têm multiplicado geometricamente direitos sobre TDAs que ainda estão sub judice, ou seja, ainda tramitam na Justiça. De posse destes papéis, chamados cessões de direito, os golpistas os vendem como se fossem TDAs já emitidas - papéis que podem ser utilizados para a quitação de dívidas com a União. ‘‘O estelionato se transformou em uma verdadeira bola de neve e se espalhou por todo o território nacional. Envolve um número tão grande de pessoas que é impossível saber quem são os verdadeiros lesados e quem são os golpistas’’, justifica Três. Em apenas dois dos inúmeros processos que correm na Justiça Federal de Cascavel e Foz do Iguaçu, os juízes federais listaram e intimaram, de uma tacada só, 871 nomes de advogados direta ou indiretamente envolvidos.
O golpe se desenvolve nos limites de um dos maiores abacaxis jurídicos do Ministério Público brasileiro, a questão fundiária na chamada ‘‘faixa de fronteira’’ no Oeste do Paraná. São processos que se arrastam desde a década de 70, quando o governo federal desapropriou centenas de milhares de hectares de terra na região.

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