Global telecom promete celular eficiente
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de outubro de 1998
Carmem Murara 
Francisco Loureiro, presidente da Global Telecom, terá que vencer o desafio da concorrência e ainda administrar com eficiência um consórcio que é controlado por empresas de países diferentes como Japão, Estados Unidos e Brasil. Quanto ao mercado de trabalho, Loureiro dá um recado: as ofertas de trabalho vão aumentar e várias empresas vão aparecer em todo o País a partir de agora. Francico Loureiro recebeu a Folha na última semana para a seguinte entrevista:
Folha - Qual a avaliação que o senhor faz do processo de abertura do sistema nacional de telefonia?
Francisco Loureiro - Foi extremamente ambicioso, o que mostrou que a ambição leva ao progresso. A proposta do presidente (Fernando Henrique Cardoso) e do Ministério das Comunicações foi incrível. Apesar dos rompantes do ministro (ex-ministro das Comunicações, Sérgio Motta), ele foi uma pessoa de fundamental importância. A estrutura foi muita bem montada.
Folha - Mas não houve muita demora em todo processo de abertura?
Loureiro: De jeito nenhum. Se lembrármos de que há quatro anos, o Brasil era um monopólio constitucional. Se pensármos que há seis ou oito meses o monopólio deixou de existir. Em um ano saiu a nova Lei Geral de Telecomunicações, enquanto nos Estados Unidos houve uma demora de oito anos. E se analisármos que apenas um ano mais tarde já havia a competição em algumas regiões, e ainda se considerármos que antes do fim destes quatro anos houve a privatização total do sistema, chegaremos a conclusão que houve um progresso fantástico.
Folha - O setor privado esperava uma demora maior?
Loureiro - Com certeza. Eu nunca imaginei que pudéssemos mudar tão rapidamente em quatro anos. Achava que poderia ser cumprido 70% a 75% das metas. Mas a mudança foi drástica.
Folha - Como foi possível agilizar a votação da quebra do monopólio?
Loureiro - O grande mérito foi estabelecer uma meta ambiciosa. Aqui no Brasil acho que não se faz nada devagar.
Folha - A presença do ministro Sérgio Motta influenciou muito na votação da privatização do Sistema Telebrás?
Loureiro - Sem dúvida alguma. Só uma pessoa como ele poderia estabelecer como seria a política. Ele cometeu uma série de erros ao longo do caminho, com desatinos como era natural do caráter dele.
Folha - Por exemplo?
Loureiro - Variações de alternativas, como por exemplo, os limites de capital. A camisa de força para impor limites ao capital estrangeiro. Isso não era apropriado e na segunda rodada isto deixou de existir. Se há uma coisa que está distorcida no modelo é o fato de que a Banda B tem um controle majoritariamente nacional, e a Banda A privatizada não tem. Como consequência há diferença no ponto de vista de financiamentos.
Folha - Mas o governo não deveria garantir espaço para as empresas nacionais no processo de privatização da telefonia?
Loureiro - Empresas nacionais todas são. Se a empresa vai manter os recursos, dividendos e os ganhos dentro do País e se vai ter uma política industrial e de reinvestimentos, não há problema algum. Acho que o governo poderia ter definido melhor a política de reinvestimentos ao invés de colocar uma camisa de força na questão do capital nacional.
Folha - Com a economia globalizada, não há mais como se impor limites ao capital estrangeiro?
Loureiro - O que é perfeitamente natural do ponto de vista de disponibilidade de capital. Se o Brasil fosse os Estados Unidos, que pudesse estabelecer uma regulamentação de tal forma que limitasse a propriedade por empresa estrangeira, no controle e gerência de segmentos da economia que considerasse estratégico e importante, seria uma coisa. Mas na realidade do Brasil, temos uma economia muito grande, mas sem capacidade de auto-geração de recursos. Na verdade, temos que captar recursos. Isso é trivial. Há ainda o fato que vínhamos da inexistência do serviço de comunicação e caímos no monopólio de 30 anos. Conclusão: as tecnologias em equipamentos e softwares com tecnologia de competição não existiam no Brasil, com raras exceções de empresas que exportavam serviço.
Folha - O senhor acompanhou todo o processo de abertura. Muitos nacionalistas e sindicatos protestaram contra a entrada de empresas estrangeiras. Por que tanto receio?
Loureiro - Acho que eles queriam voltar ao que era o mundo há 50 ou 60 anos. Ou pior, voltar 500 anos. Um certo país ou certos países que controlavam a economia mundial. O temor era arraigado a um conceito de que eles vêm para cá para nos explorar como nossos avós portugueses, que vieram aqui e levaram todo o ouro brasileiro.
Folha - Medo de voltar ao período colonial?
Loureiro - Exatamente, medo da colonização e do imperialismo. Eles não olharam para frente e em negócio não se pode olhar muito para trás. Tem que olhar para frente e ver quais alternativas que existem adiante. Acho que nós estávamos muito focados no negócio baseado em conceitos sócio-políticos. Mais do que deveríamos.
Folha - Como o senhor coloca o Brasil frente aos demais países no setor da telefonia?
Loureiro - Ainda estamos na infância do que é um mercado competitivo. Estamos ainda fora das vantagens, benefícios e problemas do mercado competitivo. Precisamos ainda de um período de dois anos do novo modelo para fazer os ajustes. O primeiro passo está dado. Há competição em algumas áreas, não em todas, como em serviços de longa distância. Temos que avançar na questão da Embratel, que ainda não tem concorrente.
Folha - Para o usuário, nosso sistema de telefonia ainda está muito aquém em relação a outros países?
Loureiro - Isto é muito claro. Basta a gente contar quantas linhas telefônicas temos dentro de casa. Todo mundo quer acessar a Internet, mas temos apenas um telefone que fica bloqueado para chamadas, enquanto ele está ligado ao computador. Nós não podemos interligar o nosso telefone do escritório com o de casa e com o celular. Isso não existe. A gente gostaria de ter a possibilidade de esolher serviços. A gente gostaria de mudar de endereço e manter o número do telefone. Para a mentalidade brasileira, isto parece absurdo, mas na verdade é trivial.
Folha - E quando estas mudanças entrarão no nosso dia-a-dia?
Loureiro - Vai levar ainda uns...depende da área, pois somos um País de muitos contrastes e não dá para generalizar o Brasil. Não dá para dizer que numa região afastada da Amazônia haverá o mesmo serviço que em Curitiba, num prazo de dois anos.
Folha - As empresas de telefonia e no caso específico a Global Telecom vão investir em áreas mais afastadas dos grandes centros urbanos?
Loureiro - No período do monopólio havia a mesma dificuldade de investir em grandes cidades ou em municípios pequenos, porque havia restrição ou limitação de investimento. Então, havia uma diferença. É razoável supor que os novos competidores, no caso nós, ao invés de focarmos o investimento em um determinado município, que já tem uma certa saturação, vamos em segmentos que não estão atendidos. Temos que atender quem precisa e vamos oferecer serviços para todos. Agora, dizer que vamos colocar serviços para uma comunidade de 200 habitantes, em uma ilha na região de Guaraqueçaba.... No começo, não. Mas vamos fazer muito o trabalho de atender áreas não atendidas.
Folha - Celular já entrou na lista das necessidades do brasileiro?
Loureiro: Celular é uma necessidade do mundo. Nós temos o raciocínio de que celular é uma coisa para um grupo segmentado. É um luxo como uma BMW. Mas isso é falso. Celular é uma necessidade para qualquer um, para qualquer profissão. Temos que estar nos comunicando e em contato o tempo todo. Temos que saber onde estão as crianças, se a empregada foi trabalhar, por exemplo.
Folha - Mas o celular tem um custo muito alto para o consumidor.
Loureiro - Mas tudo isso vai mudar e muito rápido.
Folha - As tarifas vão baixar?
Loureiro: Nós não anunciamos ainda as nossas tarifas. Foi divulgada apenas a tarifa do plano básico. O que vai ocorrer agora, é que vai haver a tarifa local e os pacotes. Queremos que a conta telefônica seja aumentada não pela tarifa, mas pelo excesso de uso. Vamos oferecer pacotes que atendam as necessidades dos usuários. Quem não quiser gastar mais de R$ 20 com um celular por mês, vai ter uma opção de serviços dentro deste preço.
Folha - É uma opção para cada segmento da sociedade e para cada grupo?
Loureiro - Extamente. Isso é o que começaremos de forma gradativa.
Folha - Quando a população terá acesso ao telefone celular sem precisar esperar na fila ou ter um serviço muito caro?
Loureiro - A fila já acabou. Nós queremos que o telefone celular seja uma realidade de compra. Serviço não pode ter fila de espera. Queremos ainda oferecer o conceito de prestação de serviço com respeito ao consumidor. Temos que dar o atendimento ao usuário como prometemos e como ele merece.
Folha - A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fixou metas que devem ser cumpridas pelas empresas e consórcios que compraram as Teles. A Global Telecom vai conseguir cumpir as metas?
Loureiro - No celular as metas são razoáveis. São cumpríveis facilmente.
Folha - Quais são as primeiras metas da Global?
Loureiro - Teríamos que cobrir 90% das regiões metropolitanas com mais de 300 mil habitantes, num prazo de 11 meses. Vamos fazer isso em seis ou sete meses. A segunda etapa, vamos passar embalados por ela. Nesta fase teremos que cobrir cidades com mais de 200 mil em 18 meses. Vamos cobrir em 12 meses.
Folha - O Brasil demorou muito para abrir o mercado e quais as consequência para o País?
Loureiro - Demorou. Demorou muito para o mercado da telefonia se abrir. Mas a pressa leva à imperfeição. O processo deveria ser mais gradativo, corrigindo os erros à medida que eles fossem aparecendo. Teve pouco debate. Por sorte, nosso modelo ficou bom. Poderíamos ter tido imperfeições muito sérias. Há situações muito complicadas. A forma como se dará a transição para o modelo de competição aberta ainda não é clara.
Folha - Por exemplo?
Loureiro - Quando que a empresa de telefonia instalada na Região Sul vai poder competir a longa distância no Norte? Isso é um erro. Deveria haver uma definição do prazo, para permitir que seja feita programação a longo prazo. Isso é um negócio com capital intensivo e por isso tem que haver planejamento com antecedência, para que não haja investimento concentrado em determinada área.
Folha - Por que houve tanto interesse das empresas de telefonia da Europa e Estados Unidos na telefonia brasileira?
Loureiro - Porque somos o maior mercado aberto do mundo, após a China, e sem as barreiras e complicações culturais e políticas da China. Aqui, temos a cultura ocidental. Temos um mercado extremamente promissor. Não é nada desprezável.
Folha - Qual o futuro a curto prazo para a telefonia no Brasil?
Loureiro - Daqui a dois anos, você vai ter uma oferta de telefone que ninguém vai acreditar. Teremos competição aberta como temos hoje na venda de pasta de dente. Teremos serviços de longa distância e uma infinidade de serviços e pequenas companhias que vão pipocar pelo País. Internet: Na hora em que conseguírmos colocar a Internet no serviço móvel, o mundo vai se abrir todo. Serviço é Internet sem fio. Faremos coisas inacreditáveis.
Folha - E qual é o futuro da telefonia fixa?
Loureiro - A tendência é virar o equivalente a um telão. Pensa na televisão básica, que temos em casa. Hoje, temos um 16 polegadas e começamos a subir para ter uma TV a cabo. Depois compramos uma televisão de 20 polegadas e depois de 30. E depois temos um telão de 30 polegadas com todas as opções. E nesta direção que está a telefonia fixa. Ela terá todas as opções em cima dela. A gente poderá fazer mídia interativa, que a limitação do celular não permite. Essa é a grande distinção do fio e do sem fio.
Folha - Quando o celular sem fio vai funcionar?
Loureiro - Daqui a três semanas (risos). O nosso vai funcionar bem.
Folha - O senhor quer dizer que não teremos mais ligações interrompidas ou as chamadas fora da área de serviço?
Loureiro - A tecnologia usada hoje é pré-adolescente, pois é analógica. Estamos entrando com a tecnologia digital, que tem uma maturidade. Em segundo lugar, estamos trazendo um nível de competência, que eu não tenho o menor temor de passar por pretensioso, mas ofereceremos uma qualidade adequada. Você vai receber chamada e vai falar sem interferência e ruído.
Folha - E as zonas de sombras, onde o celular não funciona?
Loureiro - Você vai ter eventuais zonas de sombra, mas vamos corrigir rápido, no momento em que o cliente nos avisar. Se o cliente reclamar para a gente, eu garanto que o problema será solucionado em 30 ou 45 dias.
Folha - Em cada Estado ou região, há duas empresas de telefonia fixa e duas de celular. Quando a concorrência vai ser aberta totalmente?
Loureiro - Há um processo de regulamentação, que no futuro todas as empresas de telefonia fixa vão poder competir a longa distância. As de telefonia celular estão limitadas pela região delas, naturalmente. Mas as associações entre elas passarão a ser um lugar comum. Poderemos ter serviço de longa distância via companhia de telefone fixa local no Amazonas por conta do contrato de prestação de serviços no Paraná.
Folha - Mas poderá haver uma terceira empresa operando em um Estado?
Loureiro - Pode. Há uma previsão na lei que diz que a partir do ano 2000 uma terceira licença poderia ser dada para serviços móveis. Competição não atrapalha ninguém. A grande coisa no negócio de celular é que qualquer pessoa tenha celular.
Folha - Qual a teconologia do terceiro milênio em telecomunicações?
Loureiro - É a telefonia sem fio e a integração das redes de comunicação. Será poder se comunicar em qualquer lugar. Isto é o futuro do mundo.


