O traficante Clóvis Catafesta é paranaense de Clevelândia. Ele é um homem de pele clara, cabelos loiros, ralos, começando a ficar careca na têmporas. Tem 1m75cm e está com 84 quilos. Não foi possível fotografá-lo. Seu rosto tem uma vaga semelhança com o do comediante Ronald Golias.
Ele fala devagar, com o sotaque das famílias de origem italiana do interior do Paraná, misturado com palavras em espanhol. Tirou o segundo grau, em Francisco Beltrão (PR).
Catafesta fez o curso de Técnico Florestal, em Manaus. Tem planos de estudar arquitetura quando sair da cadeia.
Catafesta tinha duas famílias, uma em Manaus, com um casal de filhos de 14 e 10 anos, e outra em Belém, onde passava a maior parte do tempo, com um filho de seis, Bruno.
A segunda mulher, Suzana, comercializa vinho de açai. A primeira trabalha numa lanchonete - sinal de que ele não enriqueceu no tráfico.
A rotina dele na Penitenciária de Allenwood: todo dia, das 8 às 9h30min, ginástica. Depois, aula de inglês. Ele trabalha na cozinha, preparando saladas, das 11 às 13.
Mais exercícios, novo turno de trabalho na cozinha, para o jantar. Assiste tevê, sempre no Discovery Chanel. Vai para a cama cedo, sozinho - a prisão é toda moderna, não tem aquelas cenas de violência e abuso sexual que a gente vê nos filmes da antiga.
A cadeia é administrada por uma empresa privada, sob supervisão do Federal Buerau of Prisions (FBP), irmão do FBI e da DEA na estrutura do Departamento de Justiça. Lá, todo preso trabalha.
Catafesta ganha um dólar por dia de salário, dinheiro que usa para pagar os telefonemas que dá para os pais, em Vilhena (RO), e um tio, religioso, em Clevelândia.
Desde que foi preso, ele nunca recebeu visitas de familiares. Chora quando fala na segunda mulher, ainda no seu coração. ‘‘Se Suzana pudesse vir me visitar, seria um sonho’’, diz choramingando porque ela não tem dinheiro para a passagem.
Ele chegou a escrever cartas para o Aqui Agora do SBT, para ver se conseguiria uma passagem para a mulher, ficando triste ao saber que o programa acabara.
Falando em dinheiro, ele se queixa dos ex-cúmplices. Os homens teriam desonerado um compromisso não escrito da bandidagem, o de dar apoio à família dos que são presos. ‘‘Eles não se lembraram de dar uma ajuda para meus filhos, por pequena que fosse’’.
Catafesta nunca delatou seus ex-comparsas. Nos EUA, a promotoria chegou a lhe oferecer aquela imunidade que se dá aos mafiosos que delatam a Máfia, com liberdade dentro de um programa de proteção à testemunhas, em troca de mais nomes e rotas do narco.
Ele não aceitou, tanto que está cumprindo pena. Na entrevista, também não quis citar nomes. ‘‘Não sei se você é repórter, padre ou policial’’, disse, com um sorriso amargurado.
No momento, ele está estudando leis na biblioteca da cadeia, um hábito de 10 em cada 10 presos.
Ele não tem dinheiro para contratar um advogado particular. ‘‘Tive um advogado do governo americano, foi um jogo de cartas marcadas. Minha prisão foi ilegal, mas nunca pude discutir esse ponto no tribunal’’, lamenta.
Ele também se queixa da falta de amparo dos cofres públicos: ‘‘Um colega daqui, francês, me disse que a mulher dele vai ganhar US$ 1000 por mês de ajuda do governo, enquanto ele estiver preso. Seria bom se o Brasil tivesse a mesma mordomia’’, sonha. (R.A.O.)

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