São Paulo, 11 (AE) - A Gessy Lever inicia o ano com mudanças radicais no Brasil. O milanês Umberto Aprille, 63 anos, presidente desde 1986, deixa o comando do grupo em dezembro. De um total de 13 fábricas no País, três estão em fase final de avaliação e poderão ser fechadas e vendidas. Os recursos obtidos serão usados para reforçar a produção e os ganhos de escala das unidades mais modernas. Nesse processo, 1,1 mil funcionários de um universo de 11 mil, precisamente 10% da força de trabalho no País, terão de ser reciclados, ou mais provavelmente demitidos. "Esta reciclagem profissional será o nosso maior desafio este ano", prevê Aprile.
A intenção do grupo anglo-holandês que faturou US$ 45 bilhões em 1998 e tem 12% dos seus negócios na América Latina, é concentrar a atuação mundial em segmentos onde a liderança possa ser conquistada ou mantida e a produção possa ter ganhos substanciais de escala. A idéia é conquistar mundialmente margem operacional de 15% ao término da reestruturação frente aos 11,1% - o melhor da história do grupo - no balanço do quatro trimestre
divulgado em fevereiro pelos dois presidentes mundiais do grupo
o inglês Niall Fitzgerald e o holandês Antony Burgmans.
De um total de 1.400 marcas do grupo comercializadas hoje em todo o mundo, restarão apenas 600. Tudo isso, ressalta Aprille, será feito com muito cuidado para não implicar em perda de "market share". Afinal, cada ponto porcentual de um dos segmentos em que a empresa atua há muito é medido por milhões de dólares. O investimento do grupo Unilever nesse processo mundial de reestruturação iniciado este ano é de US$ 5,3 bilhões e a expectativa é que resulte em economia de US$ 6,4 bilhões até 2004, quando 100 fábricas terão sido fechadas e 25 mil funcionários de um total de 308 mil serão cortados. A partir do segundo semestre, cerca de 150 fábricas-chave serão responsáveis também pela cadeia de suprimentos do grupo, resultando em economia de custos na relação com fornecedores. O reposicionamento de marcas, com extinção de algumas, ocorrerá paulatinamente.
"Na verdade, alguns produtos da Unilever já não recebem investimento em marketing e produção há vários anos, tanto que esses 600 selecionados respondem por 91% do faturamento do grupo
enquanto os outros 800 somam apenas 9% dos ganhos e apresentam queda nas vendas", diz o presidente da Unilever Latin America (Unila), o inglês Ralph Kugler. No Brasil, informou Aprille, de um total de 50 marcas existentes, 26 respondem pela maior fatia de um faturamento de R$ 4,5 bilhões. "São essas 26 marcas que serão preservadas e reforçadas, inclusive com mais recursos oriundos daquelas que irão sair, gradualmente, do catálogo." Entre as marcas genuinamente brasileiras que irão sobreviver o destaque é o sabonete Vinólia.
No setor de margarinas, por exemplo, as marcas líderes Doriana e Becel ganharão novos recursos, enquanto a Claybon tende, gradualmente, a sair do mercado. O mesmo deverá ocorrer com o cremes dentais Signal e Gessy Cristal face à prioridade de reforçar o Close Up. Na área de sabões em pó, todo o esforço será para a marca Omo, enquanto Minerva e Campeiro poderão sair da prateleira. Coisa, aliás, que a empresa fez com o sabão em pó Rinso, lançado em 1944, e que foi desaparecendo, gradualmente até ser substituído por Omo.
Quando chegou ao Brasil, em 1929, o grupo Unilever, resultante da união naquele mesmo ano da inglesa Lever Brothers e da holandesa Margarine Unie, trouxe nos contêineres a margarina inglesa Sunlight, que desapareceu no início dos anos 60 com o aparecimento da Doriana. Da mesma forma que o sabonete Lifebuoy saiu dos banheiros e das gôndolas sem deixar rastro, algumas marcas como o Atinksons estão na linha de tiro. "Elas perdem importância comercial e a escala de produção não compensa", justifica o executivo inglês.
Mas é a nova estrutura de operação na América Latina a parte mais complexa da Unila, prioridade mundial do grupo Unilever. O Brasil será o foco da atuação do grupo na região. Não é para menos, o País responde pela maior fatia de um faturamento de US$ 5 bilhões na região. Por isso, é aqui que devem ficar os presidentes de cinco categorias que vão responder pelos negócios da Unilever na América, além dos presidentes locais em cada país. Esses megapresidentes de área cuidarão da parte de higiene pessoal (personal care), higiene e limpeza da casa (home care), sorvetes, alimentos e logística. É provável que sejam três ingleses e dois brasileiros, mas a empresa ainda está definindo os nomes e também irá selecionar líderes para cada uma dessas áreas.
"O que estamos fazendo é descentralizar o poder, mas tudo funcionará muito bem, pois uma empresa grande e complexa, com várias linhas de produtos, exige uma estrutura mais complexa", diz Kugler e complementa garantindo que "no mundo moderno não é possivel contar com estrutura simples se tem que ter resultados." Essa estrutura complexa é que irá comandar a expansão da empresa na América Latina. Na década de 90, o faturamento cresceu US$ 2 bilhões na região e só o País respondeu por mais de 50% desse valor. "É isso que mostra a importância do Brasil para a empresa", reforça o inglês Kugler.
A logística é outro item que será fortalecido. A empresa estuda mecanismos que permitam reduzir custos, como centros de distribuição, compras e desenvolvimento de produtos na Améria Latina. O e-businnes, diz Kugler, terá papel importante nessa reestruturação do grupo, menos pelo lado da venda de produtos, ainda incipiente, e mais pela relação com fornecedores e clientes. A Unilever criou o portal iVillage e tem alianças com a AOL, Microsoft, Excite@Home e Wowgo (este para mulheres). "A idéia é conhecer melhor o consumidor, um item fundamental no nosso negócio", diz Kugler.

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