Brasília, 27 (AE) - A Marcha dos Cem Mil, ontem (26), em Brasília, alterou o cenário político, forçando o governo a mudar a agenda. Essa é a avaliação feita pelo líder do PT na Câmara, José Genoíno (SP), que prevê uma sequência de manifestações, caso não haja uma resposta do Palácio do Planalto, podendo desencadear o processo de mobilização que favorecerá uma vitória das oposições nas eleições municipais de 2000. Segundo Genoíno, essas mobilizações podem se dar tanto na esfera política como por reivindicações setoriais e a tendência é de crescimento do números de protestos e de manifestantes.
"Os 60% da população que desaprovam o governo Fernando Henrique Cardoso estão adquirindo voz, cara e bandeira", observou o deputado, que acredita numa tendência de derrotas do governo nas próximas votações no Congresso. "Duvido que o governo aprove os projetos de regulamentação da reforma da Previdência e a Lei de Responsabilidade Fiscal; só passa se for muito negociada com prefeitos e governadores", afirmou.
Outro cenário traçado pelo líder do PT é a possibilidade de Fernando Henrique conduzir o governo até as eleições municipais sem modificar a política econômica. Nesse caso, Genoíno acredita que a oposição vence as eleições e os setores mais conservadores do País reagirão com uma reforma política que a impeça de chegar ao poder em 2002. "Se nós ganharmos e a aliança que sustenta esse governo perder, eles vêm com o parlamentarismo", previu. "Por isso, eles estão tentando aprovar esses projetinhos de reforma política, proibindo coligações nas eleições proporcionais e cláusula de barreira para impedir a representação dos pequenos partidos no Congresso."
Respondendo a comentários de Fernando Henrique, que disse a ministros que o governo registrou o recado do protesto, o deputado petista frisou que a mensagem da sociedade precisa ser registrada também na agenda dos ministros. Na avaliação de Genoíno, o rumo da marcha é o confronto com a política econômica
que, na opinião dele, beneficia o sistema financeiro e o capital especulativo em detrimento dos setores produtivos do País. "A agenda do governo é o ajuste fiscal e as reformas, mas a agenda da sociedade é o crescimento da economia, a criação de empregos e a melhoria das políticas sociais", comentou.
Na opinião dele, a Marcha dos Cem Mil foi vitoriosa tanto pelo número de manifestantes que dela participaram como pela tranquilidade com que a manifestação transcorreu. Segundo Genoíno, essa "vitória" deu força à oposição para dialogar com a sociedade e mudar a agenda do Congresso.
"A marcha colocou a oposição no centro do debate", afirmou o deputado, observando que "toda vez que o governo tenta desqualificar uma manifestação pelo número de manifestantes é porque sentiu o golpe".
Ele garantiu que a marcha foi a maior manifestação assistida por Brasília e insistiu em que houve manipulação no número oficial de manifestantes. Genoíno contou que ontem (26), o presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) no Distrito Federal, José Zunga, disse-lhe ter sido informado por um oficial da Polícia Militar de que a avaliação inicial daquela instituição estimava entre 80 mil e 90 mil o número de populares presentes à manifestação, "mas que teria havido uma ordem superior para deflacionar o número".

mockup