General diz que MST faz 'chantagem' em Buritis
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sábado, 20 de novembro de 1999
Por Tânia Monteiro e Hugo Marques 
Brasília, 20 (AE) - O ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, classificou como "chantagem" a atitude dos manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra (MST), que acamparam em frente à fazenda do presidente Fernando Henrique Cardoso, em Buritis (MG), para negociar liberação de recursos. O general avisou ainda que o governo reagirá "com os instrumentos que dispuser", a qualquer ameaça de invasão de qualquer propriedade do presidente da República.
"Ali (a porta da fazenda Córrego da Ponte) está o limite das ações do MST", advertiu o general, acentuando que "se eles tentarem invadir, vão ser rechaçados pela força que lá estiverem presentes e com os instrumentos que essas forças dispuserem". Segundo o general, essa regra vale para todas as propriedades de Fernando Henrique, já que não será admitido que a residência de um presidente, que é um símbolo de autoridade, seja atingida.
O governo já tinha informações de que os sem-terra iriam acampar em frente à fazenda presidencial. Sete dias antes do início da mobilização, quando faziam uma manifestação em frente ao Banco do Brasil, em Buritis, os manifestantes já acertaram a estratégia de avanço dos militantes em direção à fazenda.
O general Alberto Cardoso soube da ida dos sem-terra para a fazenda, mas arriscou ao confiar no desempenho da Polícia Militar de Minas Gerais, não levando em consideração que o governador mineiro, Itamar Franco (PMDB), é hoje o maior desafeto político de Fernando Henrique.
O general Cardoso explicou que não há como impedir novas tentativas dos sem-terra de acampar em frente à fazenda. "Não se pode impedir o direito de ir e vir das pessoas", reconheceu ele. "Mas não se pode, também, aceitar que isso (acampar na frente da fazenda) vire uma prática comum, que essa chantagem vire rotina e em qualquer situação se vá lá para frente da fazenda do presidente."
Quanto ao saque do caminhão com sementes e adubos que saía da fazenda do presidente, o general considerou "um crime inaceitável". Mas a decisão de mandar o Exército reforçar a segurança no local só ocorreu um dia depois do saque, o que demonstra que o general, responsável pela segurança do patrimônio presidencial subestimou também a agressividade dos manifestantes.
Mesmo com a ajuda do Exército, Cardoso passou a sexta-feira elogiando a Polícia Militar de Minas. Comentou, no entanto que agora, com a chegada dos cerca de 250 homens do Batalhão de Guarda Presidencial, o contingente da PM foi reduzido.
Para o general, o governo não cedeu ao negociar com os sem-terra, depois de eles terem acampado em frente à fazenda Córrego da Ponte. "O governo não cedeu em nada e se alguém achar que isso pode servir de estímulo à chantagem, está achando sem base", reagiu o general.
As Forças Armadas foram convocadas depois de uma reunião entre o general Cardoso e os ministros da Justiça, José Carlos Dias, da Defesa, Élcio álvares, da Casa Civil, Pedro Parente e o comandante interino do Exército, Antônio Medeiros.
Na opinião de Alberto Cardoso, o MST, hoje, é mais um movimento político do que de reivindicação social. "Como movimento político, a tendência é ele ter de fazer, brevemente, uma opção: ou ele se modera e vai buscar nos caminhos políticos convencionais seus objetivos ou ele aceita ser considerado ilegal, já que vem fazendo isso, por meios insistentes atos ilegais", completou.
Um dos criadores do MST, deputado Adão Preto (PT-RS), confirmou que uma das intenções do movimento, ao acampar na frente da fazenda de Fernando Henrique, era também de "chamar a atenção no exterior para o problema da reforma agrária". Adão Preto disse que o MST não mudou nada.
"O governo é que está ficando mais conservador e não faz a reforma agrária", atacou ele, acrescentando que "a condição de vida dos assentados da fazenda Barriguda, próxima à fazenda de Fernando Henrique, reflete a realidade de quase todos os assentamentos do País: estão há quatro anos sem financiamento".


