Brasília, 17 (AE) - O ministro-chefe da Secretaria de Segurança Institucional, general Alberto Cardoso, sugeriu ao ministro da Defesa, Élcio álvares, que renunciasse ao cargo, argumentando que a longa exposição de seu nome na mídia, como suspeito de envolvimento com o crime organizado, tornara-o politicamente insustentável. A sugestão de Cardoso, confirmada à Agência Estado por alta fonte do Exército, foi levada a Élcio, em sua casa, no domingo, 9 de janeiro, e contrasta com a decisão atribuída ao presidente Fernando Henrique de mantê-lo no cargo.
Embora não acreditem que a ação do general Cardoso tenha ocorrido sem o aval de Fernando Henrique, os militares atribuem o desgaste de Élcio a uma ação programada por adversários políticos do ministro no plano estadual, com reforço no primeiro escalão do governo Fernando Henrique. E identificam no ministro da Saúde, José Serra, uma dessas personagens, pela aliança pessoal e partidária que o une ao senador Paulo Hartung (PPS-ES)
inimigo de Élcio, e que nas últimas eleições estava filiado ao PSDB.
Sem qualquer prova de seu suposto envolvimento com o crime organizado, a demissão de Élcio álvares está sustentada, na avaliação dos militares, apenas na frágil tese de um desgaste político irreversível. Para os militares, a condição de titular licenciado de um escritório de advocacia criminalista não compromete o ministro com organizações criminosas ou com as práticas de seus clientes. E invocam o exemplo do ministro da Justiça, José Carlos Dias, também advogado criminalista, cujo escritório defendeu o contraventor paulista Ivo Noal. O ministro
porém, nega ter defendido Noal.
"Todo criminoso, por pior que seja, tem direito a defesa, nem que seja para reduzir a pena. Um advogado criminalista necessariamente advogará para criminosos ou acusados de crimes"
disse a fonte militar.
No raciocínio militar, excluída a demissão por causa da atividade pregressa em seu escritório de advocacia - que estenderia, em tese, a mesma possibilidade ao ministro da Justiça -, resta no caso de Élcio álvares a demissão política, já que nada foi comprovado contra ele. A longa exposição na mídia como suspeito de envolvimento com o crime organizado, sem uma reação pública contundente, como esperava o governo, é que pode lhe custar o cargo.
A demissão, nesses termos, porém, preocupa as Forças Armadas por abrir precedente que confirma a tese da corrente que resistiu à criação do ministério da Defesa, segundo a qual, uma liderança civil submeteria os militares à permanente instabilidade do processo político.
Acrescentam que o ministro já comprovou sua eficiência para a aprovação dos interesses militares junto ao Congresso Nacional e ao governo.
Concordam que outro perfil civil e político também poderia ter o mesmo êxito, mas raciocinam que se nada pesa contra o atual ministro, não há sentido em mudar. "Seria começar tudo de novo por intriga política", argumenta o oficial.
A veemência que sonegou ao público externo, em sua defesa, Élcio álvares ofereceu com sobras ao público interno, desde a primeira denúncia que o vinculou ao crime organizado no Espírito Santo, publicada pela revista "IstoÉ". Na ocasião, reuniu os comandantes das três Forças e fez uma detalhada defesa pessoal, contestando ponto-a-ponto as informações da revista. Ao final, quis saber dos oficiais se conseguira esclarecer as denúncias. A resposta foi positiva, acrescida do pedido para que seus argumentos fossem transformados em processo contra seus detratores. Élcio providenciou, então, a ação contra a revista e os jornalistas.
Na semana que passou, ele também rebateu as novas acusações veiculadas pela revista, e pela imprensa em geral, em documento interno dirigido aos comandantes das Forças Armadas, obtido pela Agência Estado. Nele, Élcio desmente categoricamente que o advogado Dorio Antunes - de quem nega ser sócio -, o tenha visitado no gabinete ministerial e, de lá, telefonado para fazer denúncias. "O próprio livro de registro de presenças no ministério pode atestar isso", diz no documento aos comandantes.
Novamente, a defesa ficou restrita ao público interno. E o governo esperava mais - e de forma diferente. Esperava que o ministro tivesse a iniciativa das ações em sua própria defesa, mas só agiu quando instado pelo público interno. E que o processo visasse aos autores das denúncias que a revista veiculou, extraídas de documentos oficiais obtidos nas esferas policial e legislativa do Espírito Santo. Mas ele optou por processar a revista e os jornalistas, que se limitaram a relatar a existência das denúncias. Mesmo descontente com a tímida reação de Élcio, o governo decidiu mantê-lo e aguardar os acontecimentos.
Veio, em seguida, o desgaste pela insistência em manter no ministério a assessora pessoal, Solange Antunes, aí contra a vontade também dos militares. Irregular, por acumular cargos e vencimentos em duas instâncias do serviço público, Solange ainda teve a CPI do Narcotráfico no seu encalço, pedindo a quebra de seu sigilo bancário. Além disso, considerava-se excessiva sua influência junto ao ministro, numa intensidade intolerável para a tradição militar de estrutura hierarquizada, cuja ascensão se dá pelo mérito.
Aeronáutica - Os militares consideram superada a crise com a Aeronáutica, que dividem em duas correntes: a "Santos Dumont", vinculada aos interesses da aviação civil; e a "Brigadeiro Eduardo Gomes", doutrinária da profissionalização das Forças Armadas. Esta última, agora representada no comando pelo almirante Carlos Baptista, preocupa-se com a reestruturação tecnológica e de equipamentos da Força, que consideram sucateada pelo desprestígio dos militares após o fim do ciclo militar.
O "preço" político da adesão da Aeronáutica ao ministério da Defesa é bem substantivo: R$ 140 milhões, recursos estimados pelo novo comandante, brigadeiro Carlos Baptista, como indispensáveis à reestruturação da Força Aérea, incluindo a reivindicada reequipagem. A corrente ligada à aviação civil, à qual é vinculado o ex-comandante Werner Braun, alinhava-se a ações agressivas exercidas em favor de uma causa perdida - a da manutenção dos serviços aeronáuticos civis em mãos militares, casos do DAC e da Infraero, além da exclusão da Embraer do processo de privatização.

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