Porto Alegre, 10 (AE) - A expectativa em relação a um possível aumento das cotações internacionais da soja deve retardar e diluir, ao longo do ano, a comercialiação da safra atual do produto. Carlos Cogo, da consultoria Agromercados, estima os contratos de venda antecipada dos agricultores para a indústria deverão representar menos de 10% da produção brasileira (estimada em 31 milhões de toneladas), metade da média observada nos últimos anos.
A tendência começa também a ser percebida nas indústrias. "A venda antecipada deve cair em relação aos anos anteriores em função da volatilidade dos preços internacionais"
avalia o diretor de Relações com Investidores da Avipal, maior indústria de alimentos do Rio Grande do Sul, Cody Simões Pires.
Conforme Cogo, nos últimos 30 dias o preço do buschell (27,21 quilos) subiu cerca de US$ 0,50 na Bolsa de Chicago. A variação, acredita, está relacionada, em parte, às estimativas de quebra de safra - provocada pela seca - na Argentina e do Rio Grande do Sul, terceiro maior Estado brasileiro na produção da soja.
Com a alta dos preços em dólar, além da expectativa quanto ao alcance final dos efeitos da estiagem sobre a produção e o câmbio em queda, os produtores esperam para vender a safra adiante e faturar mais em reais, comenta o analista. Pires acrescenta como fator adicional para este comportamento a queda das taxas de juros internas, que retira a atratividade da venda antecipada com objetivo de aplicação do dinheiro obtido no mercado financeiro.
Na opinião de Carlos Cogo, as perdas de 25% nas lavouras de milho e de 10% na soja previstas até agora serão "compensáveis" para efeitos de renda do produtor, pela elevação de preços. Conforme a Emater-RS, a estiagem no Estado deverá reduzir a produção local de soja das 5,987 milhões de toneladas previstas no plantio para 5,363 milhões de toneladas. No milho o recuo previsto é de 4,938 milhões para 3,659 milhões de toneladas.
Mesmo com a quebra nas principais culturas na comparação com as estimativas iniciais, a produção gaúcha de grãos deverá crescer das 13,5 milhões de toneladas de 1999 para 14,7 milhões este ano, anunciou esta semana o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Os números diferem um pouco dos da Emater-RS, mas também indicam crescimento na produção de milho e soja em relação à safra passada.
No primeiro caso, pelos cáculos do IBGE, a produção passaria das 3,211 milhões de toneladas em 1999 para 3,914 milhões este ano, 255 mil a mais do que apontam as previsões da Emater-RS. Na soja, a safra evoluiria de 4,444 milhões para 5 395 milhões de toneladas, conforme o instituto (32 mil toneladas além da estimativa da Emater-RS).
Na cultura do milho, a redução das projeções de produção desde o plantio da atual safra deve provocar, segundo Cogo, uma média maior de preços durante o ano. A alta seria puxada no primeiro semestre, na faixa de 20% a 30%. No segundo as cotações se aproximariam daquelas verificadas no mesmo período de 1999.
"Isso deve antecipar as importações de milho, especialmente da Argentina", prevê o analista. De acordo com ele, as indústrias já estariam trazendo o produto argentino por R$ 13,00 a R$ 13,50, posto na fábrica, enquanto os preços ao produtor gaúcho, sem frete, estão entre R$ 12,00 e R$ 12,50 o saco de 60 quilos.
Cogo acredita que as duas safras de milho do Brasil não deverão passar de 31 milhões de toneladas e, segundo ele, o governo já admite a necessidade de importação de pelo menos 2 milhões de toneladas. "Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo ficarão com 80% das importações", comentou.
Do lado da indústria, as empresas estão buscando alternativas para não bancar o preço "abusivo" do milho nacional, diz Cody Simões Pires, da Avipal. "Já se compra o produto no mercado externo por menos do que no Brasil", garante. De acordo com ele, o milho representa 60% a 70% dos custos da ração para aves e "não há espaço" para repassar aumentos de custos ao consumidor final, diz o executivo. "A baixa renda per capita do País impõe limites às margens das indústrias", afirma.

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