Nova York, 15 (AE) - O gato vadio pode ser o próximo produto nacional de exportação, depois do café, futebol e samba. É aquele mesmo, muitas vezes servido como churrasquinho, encontrável em favelas, telhados, becos e praças nacionais - ele pode valer até US$ 12 mil nos circuitos internacionais de competição. A bagatela de 150 salários mínimos.
O brasileirinho de ouro é o "Brazilian Shorthair". Em bom português, "Brasileiro de Pelo Curto". Se até agora a raça era tida como praga no país, as coisas devem mudar quando a turma souber o quanto ela é prestigiada no Primeiro Mundo.
Seu descobridor é o engenheiro carioca Paulo Ruschi, de 56 anos, presidente da Brazilian Short Hair Internacional Cat Federation, com sede em Astoria, no bairro do Queens - uma organização não-governamental (ONG) globalizada, dedicada a divulgar as vantagens do gato nacional sobre os demais da espécie. "Ele é mais dócil e inteligente do que os outros", garante Ruschi.
Antes que alguém sonhe abrir um negócio de exportação de bichanos, é preciso diferenciar bem o gato vira-latas dos felinos comuns - suas carcterísticas oficiais foram definidas em agosto pelo Congresso Internacional de Gatos, realizado em Riga, Letônia. Lynx é um exemplar perfeito. Não tem pernas musculosas, tem pés médios e arredondados. O rabo tem que ser de médio a longo, afinando na ponta. As orelhas são sua marca pessoal: grandes, maior do que a largura da base. Bochechas levemente desenvolvidas. Pelagem curta, sedosa, bem fechada, deitada junto ao corpo. Seu defeito, às vezes, é um nó no rabo.
Não importa a cor do gato, desde que ele seja parecido com aquele exibido no selo emitido pelos Correios ano passado - o selo é o reconhecimento oficial da pátria ao Brazilian Shorthair.
Só aqueles com atestado emitido por uma associação gatófila nacional podem chegar aos 150 salários. Um gatinho sem certidão de nascimento vale meros 500 dólares nos Estados Unidos, ou apenas sete salários mínimos, pelo câmbio de hoje. Ruschi teve seu primeiro gato, Mimi, quando ainda era bebê. De lá para cá, fez deles paixão e meio de vida. No Brasil, foi criador de sucesso.
A descoberta de que o shorthair é um gato especial se deu pela observação de gatos vadios durante décadas. "Eu notei que eles eram dóceis, se davam bem com cachorros e tinham saúde de ferro, porque enfrentavam chuva e sol", diz o descobridor.
Ruschi criou comissões de cat lovers que cruzaram o país de norte a sul. Era gente disposta a engatinhar em becos e praças, analisando a gatalhada - tudo em momentos nos quais a vida nacional esteve voltada para temas banais como combate à ditadura, redemocratização e eleições diretas.
O trabalho silencioso rendeu: ele concluiu que o gato vira-latas descendia dos primeiros gatos europeus, trazidos pelos portugueses nos porões dos navios para proteger os mantimentos da ratalhada.
Mesclados com parentes próximos da fauna nacional, os gatos evoluíram em gentileza e resistência - mas perderam aquela agressividade dos conquistadores. Tropicalizados, deixaram a afanosa tarefa de caçar ratos. Passaram a viver de passarinhos e outros manjares.
Como é o temperamento dos gatinhos abrasileirados? Ruschi o descreve como "mais dócil, mais caseiro, mais inteligente (do que o europeu), é brincalhão e confia nas pessoas, muito ágil e de bom comportamento, características que estão empolgando criadores do mundo todo".
Em 1985, apresentando estudos e espécimes, Ruschi obteve reconhecimento nacional do bichano. O segredo genético deles está nos cromossomos - uma mescla que produz machos estéreis, mas algumas fêmeas férteis, continuadoras da raça.
No ano passado, veio a consagração internacional, com o reconhecimento do bicho pela World Cat Federation (a Federação Internacional dos Gatos), no Congresso de Riga.
Hoje, há vários bichanos da raça espalhados pelo mundo, dezenas deles nos Estados Unidos. Penélope, uma fêmea de dois anos, é a única em Nova York - adotada por um casal fino de Manhattan, ela não quer saber de publicidade. Quanto a Ruschi, virou celebridade no circuito de competições. Hoje, vive em Nova York. É juiz prestigiado pelos amantes de gatos do mundo todo - julgará na Rússia, dia 20.
Como bico, faz grooming em gato de madame, muito solicitado por seu nível no metier. Ele já teve 18 gatos de uma vez, mas agora seu gatil está vazio, porque viaja muito e não pode cuidá-los. O homem fundou a maioria dos clubes de gatófilos do país. É vice-presidente da WCF. Numa frase: ele está para bichanos brasileiros como João Havelange para o futebol.
Ruschi trabalhou anos com o tio, o célebre naturalista Augusto. "Titio cuidava de todo tipo de aves, mas não queria gatos em casa porque eles atacavam seus beija-flores. Aí ele me disse: Você cuida deles. Cuidei mesmo, não é?"

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