Curitiba- Dor no abdômen inferior, alteração dos hábitos intestinais, oscilando entre estado de diarréia e constipação, sintomas que podem estar asociados ou não à distenção do abdômen e eliminação de muco com as fezes. Pessoas que têm esses distúrbios de forma recorrente têm grande probabilidade de serem portadoras da Síndrome do Intestino Irritável, uma doença que atinge entre 15 a 18% da população, mas ainda é pouco conhecida, até mesmo entre os médicos.
O problema é a dificuldade de se fazer o diagnóstico, uma vez que trata-se de uma doença funcional do intestino. Ou seja, ela não é detectada em exames clínico, laboratorial ou endoscópico. O que vai determinar a enfermidade é o quadro de sintomas.
Diante de tantos indícios, é comum os médicos submeterem o paciente a vários exames. ''O doente vai ficando ansioso. Como os exames não mostram nada, ele fica preocupado, tem medo de ter um câncer, por exemplo'', explica o médico Marcos Kleiner, chefe do setor de Gastroenterologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUC-PR). Por isso, para ele, o fator determinante para o estabelecimento do diagnóstico é a conversa entre o médico e o paciente. ''Se o paciente não tem sinais de alarme, ou seja, não emagrece, não sangra, não tem febre, provavelmente não tem uma lesão orgânica'', simplifica.
Por esse motivo, especialistas de todo Brasil, por meio da Associação Brasileira para os Estudos da Síndrome do Intestino Irritável, tomaram a iniciativa de estabelecer critérios preliminares de diagnóstico e tratamento de consenso para a doença. Ontem, especialistas do Paraná reuniram-se em Curitiba para debater o assunto. A previsão é que a conclusão do Consenso aconteça no final de novembro, durante o Congresso Brasileiro de Gastroenterologia, em São Paulo.
Segundo Kleiner, os problemas interferem na rotina e prejudicam a qualidade de vida do paciente. ''O paciente sofre muito. Tem gente que deixa de viajar de avião, por exemplo, porque tem medo de ter uma diarréia'', conta. A síndrome, segundo ele, é a segunda causa de faltas ao trabalho, só perdendo para a gripe.
A doença acomete duas vezes mais as mulheres, em especial em idade entre 30 e 50 anos. Outro problema é que as causas ainda são desconhecidas. Acredita-se que possa ter origem em um trauma emocional, físico ou sexual na infância, que pode tornar a pessoa mais sensível, desencadeando as crises. Estudos também apontam que a doença está relacionada a alterações nos neurotransmissores, como a serotonina, responsável pela transmisão nervosa entre os neurônios.
Como não tem causa definida, também não há cura. O tratamento é feito com medicamentos apenas para os sintomas (dor, diarréia, prisão de ventre). Também são levados em conta alguns fatores, como alimentação, hábitos de vida e características psicológicas.
Segundo o presidente da Associação Brasileira para o Estudo da Síndrome do Intestino Irritável (AbeSII), Flavio Quilici, grande parte dos pacientes melhora com um esclarecimento sobre a doença e com reeducação alimentar. Por isso é importante eliminar primeiro o fantasma de uma doença maligna e estabelecer um vínculo positivo com os pacientes. ''Os médicos que tratam da doença devem estar preparados para um atendimento que ultrapassa o clínico e envolve o psicológico, numa forte relação médico-paciente'', destaca Quilici.

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