A descoberta dos efeitos gerados pelo gasto de energia tradicional sobre o clima do planeta terá repercussões significativas no comércio mundial nas próximas décadas. A avaliação é do presidente do Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (Cebds), Fernando Almeida, que participa do Fórum Internacional de Energia Renovável e Sustentabilidade, em Florianópolis. O Cebds reúne cinquenta das maiores empresas do país, que representam aproximadamente 40% do Produto Interno Bruto (PIB). Segundo Almeida, o transporte de mercadorias entre países distantes vem acarretando um consumo de energia muito superior à utilizada na própria fabricação dos produtos.
Em entrevista à FOLHA, ele afirmou que, para um brasileiro, o consumo de vinho chileno significa uma grande economia de combustível e emissão de CO2 (gás carbônico) em relação a um vinho australiano, que dá quase uma volta sobre o planeta para chegar ao país. ''Certamente, esta emissão de poluentes que contribui para o aquecimento global vai mudar o comércio mundial. O consumo de produtos locais é muito mais sustentável ambientalmente''. A mesma observação já havia sido feita na abertura do Fórum pelo ex-presidente do Chile, Ricardo Lagos.
Segundo ele, há alguns anos seu país começou a exportar frutas para a França - o que encheu os chilenos de orgulho patriótico. ''Mas imagine o custo para o planeta do transporte de nossos morangos até os mercados de Paris. É sustentável?'', questionou.
Mesmo com a percepção crescente desse desperdício de energia, o presidente do Conselho Empresarial acredita que as empresas, governos e consumidores ainda não despertaram para a gravidade da situação. ''Eu sou um otimista, mas com certa reserva. A situação do planeta se deteriora a cada dia porque a camada de apenas 17km da atmosfera é muito pequena para absorver a emissão de gases. Infelizmente, o senso de urgência ainda não está inserido na sociedade'', disse.
O líder empresarial também alertou para os riscos sociais das mudanças climáticas. ''Poderemos retroceder nos avanços que a humanidade vêm alcançando para reduzir a miséria. Se não conseguirmos estabilizar as emissões, isso vai induzir uma nova onda de pobreza, com grandes secas, incêndios e enchentes generalizadas''.
Liderança corporativa
Para o presidente do Cebds, o verdadeiro despertar da consciência ambiental ainda depende do surgimento de grandes líderes - o que ele chama de lideranças corporativas. Em sua visão, a história das sociedades ocidentais passou por três ciclos de governanças. ''Já fomos governados pelas igrejas, depois pelos governos e agora pelas empresas. Então, o setor privado tem a maior responsabilidade nessa transição ambiental. Mas carecemos de grandes líderes éticos e que saibam operar as mudanças. Infelizmente, ainda não apareceu um Nelson Mandela da sustentabilidade ou um Mahatma Ghandi do aquecimento global'', comparou.
(*) O repórter da FOLHA viajou a Florianópolis a convite do organização do evento.

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