Brasília, 04 (AE) - O menino Danilo de Castro Dourado, de 9 anos, que ficou nacionalmente conhecido em agosto de 1997, quando o então presidente do Banco Central (BC), Gustavo Franco, foi flagrado negando esmola para o garoto, voltou à cena hoje, nadando no lago construído em frente do Congresso, driblando os seguranças da Câmara e da Polícia Militar.
O lago foi construído ao custo de R$ 1 milhão. Desde hoje, virou a mais nova atração dos meninos de rua que ficam esmolando na Esplanada dos Ministérios. No dia em que Franco negou esmola ao menino, ele dirigia-se para a sabatina no Senado.
Hoje, Danilo voltou a ser a estrela de fotógrafos e cinegrafistas. Acompanhado da irmã, Sanda, de 11 anos, e das amigas Diana Ferias da Silva, de 13, e Patrícia Barbosa Machado, de 10, ele nadava no lago. Alguns policiais chegaram a ameaçar a prender os meninos. "Não quero ir para ir o SOS Criança", dizia Danilo, enquanto fugia dos policiais.
A grande vantagem desse novo lago - projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer e mandado construir pelo presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFl-BA), para evitar manifestações populares em frente do Congresso - é a limpeza. Diferente dos outros espelhos dágua localizados na Esplanada, este ainda não apresenta lodo, não tem plantas, nem peixes. "Esse lago é melhor, já que aquele é cheio de porcaria", explicava Danilo, apontando para o espelho dágua do Ministério da Justica. "Já aquele é bom porque é fundo", dizia o menino, apontando para o Palácio do Itamaraty e demonstrando grande habilidade ao nadar, apesar de nunca ter entrado numa piscina.
Danilo volta a ser o retrato da crise econômica e símbolo da agravamento da crise social. Durante os últimos dezoito meses, a situação de Danilo só piorou. Até hoje, ele não tem certidão de nascimento e, por isso, não pode estudar nas escolas públicas do Distrito Federal. Analfabeto, ele usa o verbo "favorzar" para descrever a ocupação, ao invés de dizer que pede esmolas. Há um ano, ele chegava a arrecadar até 10 reais por dia. Atualmente, o rendimento dele varia entre 2 e 5 reais. Até o fim da tarde de hoje, ele não havia arrecadado nada.
O menino continua morando num casebre de lona e papelão, localizado numa invasão da Vila Planalto. Ele vive com a "mãe e sete irmãos, contando com o que vai nascer". A principal fonte de renda da família vem do irmão mais velho, Luciano, de 12 anos
que trabalha como catador de papel. Mas, como o dinheiro é insuficiente, a família de Danilo recebe a ajuda do ex-padrasto, que vivia com a mãe dele até o fim de 1998.
Os dias de Danilo não têm sido fáceis. Às vezes, passa o dia inteiro sem comer. Hoje, graças ao dinheiro enviado pelo ex-padrasto, Danilo havia almoçado. No mesmo momento em que ele se banhava nas águas limpas do lago, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, anunciava um balanço da revisão do acordo estabelecido com os técnicos do Fundo Monetário Internacional (FMI).

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