Garotinho sabia de denúncias contra Louzada desde dezembro
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terça-feira, 21 de março de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo e Wilson Tosta 
Rio, 22 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho, teria conhecimento das denúncias contra o chefe de Polícia Civil
delegado Rafik Louzada, desde dezembro, mas não tomou nenhuma providência. Em carta, o então coordenador de Segurança e Cidadania, Luiz Eduardo Soares, alertava o governador sobre o suposto envolvimento do então delegado com a banda podre da Polícia Civil.
Soares não pretende depor à comissão especial, pois nada teria a acrescentar a suas denúncias que estão em um dossiê entregue ao Ministério Público. Hoje o governador afastou mais dois policiais acusados de extorsão pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar,
O alerta de Soares era uma tentativa de fazer com que Garotinho mudasse de idéia quanto à nomeação de Louzada para a chefia de Polícia, no lugar do delegado Carlos Alberto de Oliveira, ligado a Soares. A carta não surtiu efeito. As informações de que o governador tinha conhecimento prévio das denúncias contra Louzada foram dadas hoje pelo advogado do ex-coordenador, Marcelo Cerqueira.
"Eu não tive acesso à carta que foi enviada ao governador, mas sei que o seu conteúdo trazia informações sobre o delegado Rafik Louzada", disse Cerqueira. "A intenção do Luiz Eduardo Soares era fazer um alerta ao governador, que naquele momento queria nomear o Rafik para a chefia de Polícia."
Garotinho tem dito que demitiu Soares por quebra de hierarquia, já que ele teria preferido procurar a imprensa para fazer as denúncias contra a banda podre, sem antes ter procurado o próprio governador e o secretário de Segurança, coronel Josias Quintal.
Depoimentos - Louzada é acusado de extorsão a um traficante e de ser dono de uma franquia de uma rede de lanchonete, no valor de R$ 500 mil. Hoje a comissão especial que apura corrupção na Polícia fluminense ouviu o delegado. Para o procurador-geral de Justiça do RJ, José Muiños Piñeiro, as denúncias são "gravíssimas".
Cerqueira confirmou que Soares e sua família deixaram o País rumo ao Estados Unidos, em vôo que saiu do Brasil por volta de meia-noite e meia de São Paulo. Segundo o advogado, a mulher do Soares, Bárbara, que era subcoordenadora de Segurança e Cidadania, recebeu ameaças de morte por telefone. Outras ameaças também foram registradas pela secretária eletrônica da casa do sociólogo.
"Além de correrem risco de vida, não havia mais condições do Luiz Eduardo e da família dele continuarem no Brasil", disse Cerqueira."Como é que ele iria voltar a dar aulas sob a proteção de seguranças?" O advogado disse que o ex-coordenador não tem mais nada a acrescentar sobre as denúncias que fez, que estão em um dossiê já entregue ao Ministério Público. Por isso, Soares não pretende depor na comissão especial que apura corrupção na Polícia do Rio.
A comissão, presidida pelo secretário Josias Quintal e com a participação de dois integrantes do MP, pretendia ouvir, por convite, o ex-coordenador hoje. Marcelo Cerqueira afirmou, no entanto, que seu cliente está disposto a depor na CPI do Narcotráfico. Os deputados da comissão estarão no Rio na próxima semana. A intenção é ouvir todos os envolvidos nas denúncias de Soares.
Traficante - Desde que as denúncias vieram à tona, sete policiais - cinco dos quais ligados diretamente ao chefe de de Polícia Civil - foram afastados. Hoje à tarde, em entrevista no Palácio Guanabara, Garotinho anunciou o afastamento de mais dois policiais: o detetive Ricardo Wilker e o delegado Mário Chadud. Wilker é acusado de extorsão pelo traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, em uma fita gravada pela Justiça do Mato Grosso do Sul. Na fita, o traficante afirma que o detetive lhe tomou um apartamento na Barra da Tijuca.
Já o delegado Mário Chadud, nomeado assessor a pedido do ex-coordenador de Segurança, é acusado de enriquecimento ilícito
porque sua declaração de bens revela patrimônio avaliado em R$ 1,7 milhão. Seu salário como delegado, no entanto, não passa de R$ 5 mil.
Na entrevista, o governador aproveitou para lembrar que Chadud não é o primeiro policial ligado a Soares a ser afastado - na segunda-feira, o delegado Walter Barros, ex-coordenador do projeto Delegacia Legal, foi destituído do cargo por responder à uma acusação de tortura.
"Eu só estou um pouco preocupado porque ontem, na lista da banda podre, um afastado por tortura era o delegado Walter Barros, que estava atuando ligado ao doutor Luiz Eduardo", disse Garotinho. "Hoje, outro afastado por suspeita de enriquecimento ilícito, o delegado Mário Chadud, estava assessorando diretamente o doutor Luiz Eduardo na Coordenadoria de Segurança; a banda podre é maior do que eu imaginava."


