Rio, 23 (AE) - Embora não admita ter mudado seus planos de concorrer à Presidência da República, o governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), sem alarde, ampliou o prazo final para decidir se concorrerá mesmo ao cargo. Agora, o pedetista, que passou mais de 30 dias rebatendo acusações de corrupção contra sua administração, anuncia que só cuidará da candidatura em abril de 2002 - limite para que deixem os cargos públicos os candidatos à eleição daquele ano. Em outubro de 1999, Garotinho parecia ter mais pressa: em entrevista ao Grupo Estado, dissera que trataria do assunto já após as eleições de 2000.
"Tenho 40 anos e posso ser candidato com 42, com 46, com 50
com 54", diz ele agora, sorrindo. "Não tenho pressa." Garotinho afirma que ser candidato a presidente "não é uma obsessão" e declara que sempre deixou claro que sua candidatura é uma "hipótese".
Segundo ele, nada mudou nesse ponto por causa das denúncias que levaram o PT a deixar o governo e o obrigaram a uma reforma do secretariado e a se reaproximar do PDT e do seu presidente nacional, Leonel Brizola. O governador diz que superou os problemas que tinha com o líder da legenda -em 1999 chegou a exigir que Brizola tivesse humildade - e afirma que continuará a pregar a renovação do trabalhismo. Garotinho nega que o brizolismo tenha voltado ao governo.
"Isso não existe", diz. Ele também rebate a acusação de que governa pelos meios de comunicação de massa. "Dou à mídia a importância que ela tem", diz. "Essa é uma forma moderna de administrar." Agência Estado - O senhor considera que a crise em seu governo está encerrada? Anthony Garotinho - Primeiro, é preciso separar crise administrativa de crise política. O governo não vive crise administrativa. As finanças do Estado nunca estiveram tão bem, e o governo do Estado está com uma série de projetos importantes em diversas áreas. O governo viveu uma crise política, com a saída do PT e essa onda de denúncias feitas contra os meus colaboradores. Eu considero que a crise política está encerrada, porque a base que tinha como partido de sustentação o PT já foi recomposta, com companheiros do PDT, do PSB e do PC do B e pessoas independentes, e as denúncias estão caindo, uma a uma, por falta de consistência. AE - Ao longo dessa crise, o senhor sofreu críticas de que governava pela mídia, demitindo pessoas por intermédio dos meios de comunicação. Como o senhor encara essas afirmações? Garotinho - Olha, na verdade, nunca governei pela mídia. Eu dou à mídia a importância que ela tem. O mundo mudou muito. Hoje, vivemos uma sociedade onde as pessoas se informam ou desinformam pelos meios de comunicação. Hoje, o meio de se comunicar não é mais o velho comício, não é mais a cartinha. Hoje, você se comunica com a população pela rádio, pelos jornais, pela TV. Então, essa é uma forma moderna de administrar. Não demiti secretário nenhum por meio de comunicação. Isso foi uma versão vendida pelo Luiz Eduardo (Soares, ex-coordenador de Segurança). Naquele episódio, na véspera, eu já havia comunicado que era insustentável a situação dele. Então, naquele momento, foi apenas o comunicado de uma decisão que já estava tomada. AE - Em uma entrevista ao Grupo Estado, em outubro de 1999, o senhor disse que queria ir para o debate com o presidente nacional do seu partido, o PDT, Leonel Brizola. E agora, recentemente, o senhor deu uma guinada, passou a ouvir o partido
disse que vai se integrar ao PDT. O que mudou? Garotinho - Não mudou nada. Eu continuo defendendo a democratização do PDT. Continuo defendendo o novo trabalhismo, ou seja, uma nova concepção política para a continuidade do trabalhismo histórico. Continuo defendendo que o PDT tenha eleições diretas para escolher o candidato a presidente da República. Apenas houve uma reaproximação pessoal, que andou muito atritada, entre mim e o ex-governador Brizola. AE - Mas, quando o senhor nomeou os novos secretários, submeteu antes seus nomes ao partido. Não era isso que o senhor dizia que não aceitava? Garotinho - Não, não. Os secretários do PT foram indicados pelo PT. Os secretários do PSB foram indicados pelo PSB. O do PC do B
pelo PC do B. E os do PDT foram indicados pelo PDT, com consulta minha. Eu consultei o partido, e dessa reunião participou o ex-governador Leonel Brizola. Não há diferença nenhuma de postura. Todas essas versões que foram dadas - "Garotinho se submete a Brizola", "Garotinho vai ser manipulado por Brizola"... Olha, eu tenho 40 anos de idade. Brizola tem o seu pensamento, e eu o respeito, e ele sabe que tenho o meu pensamento, e ele me respeita. Em diversos assuntos, temos opiniões comuns, em outros, opiniões diferentes. AE - Mas essa relação se tornou mais próxima... Garotinho - Tornou-se mais próxima porque quebramos uma inimizade que estava se criando entre nós, era uma coisa mais pessoal. Ele até me ligou no dia 18 de abril, dia do meu aniversário, para me cumprimentar. Temos conversado normalmente. AE - Dizer que o brizolismo voltou ao governo é um exagero? Garotinho - O brizolismo voltou ao governo? Isso não existe. Qual é o fato concreto? O deputado Luiz Alfredo Salomão ser secretário de Transportes? AE - E sua candidatura a presidente, como fica, depois da crise? Garotinho - Eu sempre disse que esse é um tema que vou tratar no momento oportuno. Eu, agora, tenho que fazer o que estou fazendo: governar bem o Rio de Janeiro. Então, se ao final do meu mandato eu conseguir realizar todas as coisas que me propus... Se conseguir manter essa aliança de partidos e ampliá-la em nível nacional, para uma candidatura que seja de centro-esquerda... Se o quadro nacional permanecer como está, com um vazio, com a população à espera de um candidato novo, mantendo a estabilidade econômica, que é grande conquista do governo Fernando Henrique Cardoso... Eu posso ser candidato. Agora, eu tenho 40 anos. Eu posso ser candidato com 42, com 46, com 50, com 54... Eu não tenho pressa. Eu tenho um grande aliado ao meu lado: o tempo. AE - Quando essa decisão será tomada quando? Garotinho - No momento oportuno, ou seja, no prazo de desincompatibilização, ou seja, abril de 2002. Então, está muito longe ainda. AE - A crise mudou alguma coisa nesse ponto? Garotinho - Não, absolutamente. Eu estou falando como falava. Sempre coloquei no campo das hipóteses. Um candidato que apresenta 5%, 6%, ora 7%, numa pesquisa feita agora na capital de São Paulo, com 10% de preferência de meu nome para a Presidência da República, você há de convir que é uma candidatura que tem que ser pensada. Mas não é uma obsessão, até porque tenho uma longa estrada pela frente. AE - O senhor concorda que perdeu os formadores de opinião? Garotinho - Eu acho que eles se dividiram, porque houve uma campanha muito forte contra o governo, movida por interesses que eu nem gostaria de comentar. Mas com o tempo as pessoas vão entender que o governador do Estado, mesmo que tenha o desejo de que essas pessoas que estiveram envolvidas nesses episódios que provocaram desgaste, como no caso do João Moreira Salles (documentarista acusado de ajudar o traficante Marcinho VP), mesmo que tenha desejo que ele prove a sua inocência, não pode dar ordem a um delegado, a um secretário de Segurança... Não pode dizer assim: não instaure o inquérito, porque ele é filho do dono do Unibanco. Porque, no dia em que eu fizer assim, não terei moral para prender um ladrão de galinha. AE - Quando o senhor bate nessa tecla, não é uma forma de se reforçar junto ao povão? Isso não é parte de uma estratégia maior? Garotinho - Não. É parte de um fato concreto. Na escuta telefônica feita contra o Marcinho VP, foram detectadas ligações dele para o cineasta João Moreira Salles. Ao ouvi-lo, foi-se criando uma situação que praticamente tinha que levar ao indiciamento. Ele (Salles) dizia que eram R$ 1.200 (de ajuda mensal ao traficante), depois ficou provado que eram US$ 1 mil; ele dizia que os contatos eram esporádicos, e as ligações mostraram que eram constantes; a irmã do traficante trabalha na produtora, de carteira assinada; a chefe da produtora mantinha contatos, em reuniões até em outros Estados... Uma situação muito complexa. E isso gerou uma certa revolta desses setores ligados a ele, uma pessoa ligada à intelectualidade, com muita influência nos meios de comunicação. AE - O seu candidato a prefeito não é mais a vice-governadora Benedita da Silva? Garotinho - Eu não disse isso. O que eu disse é que eu vou continuar defendendo a aliança até a convenção. A convenção do PDT vai ouvir de mim que o melhor e o mais correto é a manutenção da aliança no Rio de Janeiro, mas que essa posição perdeu força agora, com a saída do PT do governo. AE - E para presidente, quem é o seu candidato? Garotinho - Para presidente? Disso eu só vou tratar mesmo com precisão a partir de abril de 2002.

mockup