Rio, 30 (AE) - O presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, defendeu hoje a renúncia coletiva do secretariado do governador do Rio de Janeiro, Anthony Garotinho (PDT). Segundo Brizola, a medida é necessária para dar ao governador liberdade para recompor seu governo e iniciar uma "nova fase" na administração, com credibilidade. Em entrevista ao programa "Câmara Aberta", que será transmitida no domingo (02) pela TV Bandeirantes, o ex-governador afirmou que o episódio da demissão do coordenador de segurança do Rio, Luiz Eduardo Soares, por suas denúncias de corrupção na Polícia Civil, abalou a imagem de Garotinho com os formadores de opinião.
"A classe média está intrigada, porque confiava muito no Luiz Eduardo", disse o presidente nacional do PDT. Brizola contou que a sugestão de renúncia coletiva foi decidida pelo conselho político do PDT, e será levada ao governador do Rio. Ele também defendeu a saída do PT do governo, se os secretários e a bancada legislativa da legenda continuarem em conflito com a administração.
"O PDT acha melhor que o PT assuma uma posição", afirmou Brizola. "Se eles estão descontentes, então que desembarquem", disse. O ex-governador reconheceu, no entanto, que a legenda petista foi importante na vitória eleitoral de Garotinho. "Mas em tudo prevalece o interesse público", ressalvou. "Se uma parte se revela inadaptada, o governo tem de trabalhar sem esta parte."
Para Brizola, a reestruturação do governo tem de atingir também os pastores que trabalham na administração. O ex-governador voltou a criticar o excesso de pastores evangélicos no governo, no trabalho de distribuição de dinheiro para famílias carentes. Amanhã (31), Garotinho se encontra com um grupo de empresários evangélicos em Fortaleza, no Ceará. O governador queria evitar que o encontro fosse divulgado por sua assessoria, para evitar especulações de que estaria buscando possível apoio financeiro para disputar a sucessão presidencial em 2002.
Ainda na entrevista para a TV, Brizola criticou a participação de pastores na prévia do PT que escolheu como candidata à prefeitura a vice-governadora Benedita da Silva. Ele contou que, se fosse a parte derrotada na prévia, tentaria impugnar o resultado na justiça eleitoral, por causa da influência excessiva de missionários evangélicos na campanha da vice-governadora.
Irritado com as afirmações do líder pedetista, o presidente regional do PT, deputado Carlos Santana, disse que não irá aceitar que o PDT "meta a colher" em assuntos internos do PT. "Se hoje Garotinho está sentado naquela cadeira, isso se deve também a nossa força eleitoral", disse. Santana, o presidente nacional do PT, José Dirceu, a vice-governadora Benedita da Silva e o secretário de Planejamento, Jorge Bittar, reuniram-se à tarde com Garotinho. Somente Santana falou pelo grupo. "Foi uma reunião para lavar a roupa suja", comentou o deputado. Na quarta-feira, o governador demitiu o presidente do Centro de Processamento de dados do Estado (Proderj), o petista Sérgio Rosa, da moderada Articulação e aliado de primeira hora da aliança entre os dois partidos que viabilizou a eleição do pedetista.
Rosa foi exonerado, pelo rádio, após denunciar que setores do governo, ligados ao secretário-executivo de Governo, Luiz Rogério Magalhães, estariam fazendo pressão para favorecer empresas de informática, entre as quais a empresa de consultoria Oracle, que teria fechado contrato de prestação de serviço, sem licitação, no valor de R$ 1,5 milhão. Em entrevista, o ex-presidente do Proderj chamou Magalhães de "covarde" e "mentiroso".
O secretário de Administração, Hugo Leal, de quem Rosa era subordinado, respondeu ao ex-auxiliar atacando. Segundo Leal, em um ano à frente do Proderj, Sérgio Rosa assinou 12 contratos sem licitação, que custaram ao Estado R$ 3,5 milhões. O secretário disse que já foi montada uma comissão que terá 15 dias para apurar possível irregularidades nos contratos.
No PT, o clima continua tenso. Na quarta-feira à noite, em reunião da Articulação que durou cinco horas, Jorge Bittar chegou a pedir a retirada do partido do governo. Segundo alguns participantes da reunião, Benedita rechaçou a idéia e ameaçou desistir de disputar a prefeitura do Rio, caso isso venha acontecer.
Hoje, assessores do deputado estadual Carlos Minc (PT), que ocupavam cargos na Fundação Estadual de Engenharia do Meio Ambiente (Feema), pediram demissão. No domingo, o diretório do partido decide se o PT fica ou não no governo.
GAROTINHO - No fim da tarde, a assessoria de imprensa do Palácio Guanabara distribuiu nota oficial na qual Garotinho descarta "completamente" a proposta de renúncia coletiva do secretariado, sugerida por Brizola. O governador disse não ver motivos para isso, já que "medidas contra insubordinação isolada de alguns funcionários já foram tomadas".
Quanto à participação excessiva de pastores evangélicos no governo, criticada pelo presidente do PDT, Garotinho ressaltou que nenhum deles ocupa cargo de secretariado e disse que espera "mais uma vez" que o ex-governador respeite a sua opção religiosa. "Eu respeito que o Brizola seja ateu e espero que ele respeite que eu seja presbiteriano", disse Garotinho.

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