Garotinho dá ultimato ao PT sobre apoio ao governo
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domingo, 09 de abril de 2000
Por Murilo Fiuza de Melo e Wilson Tosta 
Rio, 10 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho (PDT), impôs hoje um ultimato ao PT para que decida se o apóia ou não, caso contrário, todos os integrantes do partido no governo serão exonerados - entre os quais, três secretários e mais 300 petistas que ocupam cargos em segundo e terceiro escalões. Pressionado por integrantes do Conselho Político do PDT, com quem se reuniu no fim da tarde, por duas horas, para discutir as denúncias de corrupção contra os auxiliares, Garotinho acusou "deputados petistas" da Assembléia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de tentar "enlamear" a administração.
"Ou eles assumem que são governo, porque estão e participam dele, ou então estão fora", disse Garotinho, referindo-se a parlamentares da Articulação, aliada do governador e da qual faz parte a vice-governadora Benedita da Silva. "Não estamos expurgando ninguém, mas eu não posso admitir que deputados do PT, que estão na administração, afirmem: Vamos sair da lama, como se nós fôssemos um Frankstein, representássemos o mal e eles, o bem." As declarações do governador foram feitas depois que ele e o presidente nacional do PDT, Leonel Brizola, bateram boca em público. O ex-governador acusara Garotinho de manter uma "banda podre" na administração estadual. A briga entre os dois aconteceu minutos antes da reunião do conselho, que decidiria a renúncia coletiva do secretariado de Garotinho, defendida por Brizola e pelo deputado federal Miro Teixeira (PDT-RJ). Após o encontro, porém, a estratégia adotada foi a de solidariedade entre os líderes do partido e de ataque ao PT. Durante todo o dia, Garotinho e Brizola trocaram acusações mútuas pelo rádio e TV. O governador desafiou o presidente do PDT, questionando por que ele, quando governou o Rio, não entregou ao Ministério Público (MP) e ao Tribunal de Contas do Estado (TCE) a apuração de denúncias contra assessores.
"O Brizola sofreu denúncias mais graves do que estão fazendo contra mim e meus auxiliares, algumas até chegaram a ser provadas, mas e por que, então, ele não deixou que o Ministério Público e o Tribunal de Contas apurassem, como eu estou fazendo?", perguntou o governador, durante entrevista à TV. Ele voltou a afirmar que está sendo vítima de acusações "orquestradas" contra o governo vindas do Palácio do Planalto e do sistema financeiro. "A Febraban (Federação Brasileira das Associações de Bancos) é uma das que estão fazendo pressão", disse, logo depois de deixar a sede nacional do PDT, à tarde.
Garotinho, que, mais cedo, dissera que não compareceria à reunião do Conselho Político do PDT, chegou de surpresa no momento em que Brizola, em entrevista coletiva, o criticava. "Hoje mesmo, gravei uma inserção para a tevê em que digo que os partidos são vistos pela população com muita reserva porque a política brasileira tem muitos políticos ordinários que os desmoralizam", afirmou.
Ao ver Garotinho, porém, Brizola tentou minimizar a declaração, afirmando que falava da relação institucional entre o partido e o governo. O governador, então, retrucou, dizendo que não havia a possibilidade de renúncia coletiva do secretariado, como defendia Brizola. "Estão vendo como ele é auto-suficente porque, para o governador, partido não existe, não opina", disse o líder do PDT.
"Estamos fazendo uma sugestão; o sr. (Garotinho) aceita ou não; achamos que o sr. está assinando fichas (de filiação) que não convém porque há uma banda podre no partido." Segundo alguns dirigentes pedetistas, durante a reunião do conselho político, Garotinho cedeu e disse que, nos próximos, dias irá "recompor o governo". "Nós aqui caminhamos, partido e governo
em direção um do outro e o que ficou explicitado é que nossa agenda deve ser positiva, de cooperação permanente", afirmou Brizola, que não conseguiu explicar porque havia comparado, horas antes, parte dos auxiliares da administração Garotinho à "banda podre" - termo usado para classificar os policiais corruptos do Rio. "É uma expressão que tomou dimensão por toda a parte, vem de longe, mas o que interessa agora é que a vinda de Garotinho à reunião mostrou que ele está disposto a lutar pela união do partido", disse o ex-governador.
Um participante da reunião contou que o governador fez uma autocrítica, dizendo que errou na relação com o PDT. "Na hora H, o que tenho do meu lado é o PDT mesmo", disse o governador, no encontro. A primeira-dama do Estado, Rosângela Matheus, reforçou o pronunciamento do marido. O presidente regional do partido, Carlos Lupi, propôs que o governador resolvesse qual seria a participação do PT no governo e sugeriu que Garotinho passasse a se reunir semanalmente com o comando pedetista. A aceitação das propostas ajudou a tornar viável o acordo.
A proposta de renúncia coletiva do secretariado foi abandonada porque os integrantes da cota pessoal do governador acusados de irregularifdades, que o comando pedetista queria afastar, começaram a deixar a administração. No sábado (08), o advogado Antonio Oliboni pediu para deixar o cargo de secretário de Justiça. Hoje, o presidente da Companhia Estadual de Habitação, Eduardo Cunha, pediu o afastamento. Os presidentes da Agência Reguladora de Serviços Públicos Concedidos (Asep), Ranulfo Vidigal, e da Empresa de Obras Públicas, Carlos Siqueira
e o secretário de Defesa Civil, Paulo Gomes, enviaram hoje cartas ao governador, pedindo afastamento dos cargos.
Benedita soube pelos jornalistas do ultimato de Garotinho e não quis comentar. Ela pediu que haja "gerenciamento político" da crise, com a participação dos partidos da frente da esquerda. Amanhã (11), o presidente nacional do PT, deputado José Dirceu (SP), vem ao Rio para convencer o grupo de Benedita a deixar o governo. "Ele deve ter sabido da disposição do Zé Dirceu e se antecipou", disse o presidente do PT do município do Rio, Carlos Santana.


