Rio, 29 (AE) - A situação do coordenador de Segurança do Estado, Luiz Eduardo Soares, no governo Anthony Garotinho ficou ainda mais delicada hoje. Em entrevista no Palácio Guanabara, ao lado de Soares e do secretário estadual de Segurança, coronel Josias Quintal, o governador fez duras críticas à atitude do documentarista João Moreira Salles, que durante quatro meses deu R$ 1,2 mil, a título de ajuda, a Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP, o traficante foragido mais procurado pela polícia carioca. Soares havia saído em defesa de João Salles.
Quintal e o coordenador de Segurança Pública já haviam trocados acusações públicas, porque Soares saiu em defesa do documentarista, que disse ter dado o dinheiro para financiar um livro de Marcinho VP e para retirá-lo da criminalidade. A reunião de hoje no Laranjeiras, que durou quase duas horas, era para mostrar a suposta unidade da equipe de Segurança, mas foi o próprio Garotinho quem mostrou o racha no governo. Ele partiu para o ataque ao documentarista, diante de um constrangido Luiz Eduardo Soares.
Segundo o governador, a ajuda de Salles, que ele tratou como "mesada", estaria sendo utilizada supostamente para manter o traficante escondido em Buenos Aires, na Argentina. "É justo que alguém dê a um foragido da Justiça, matador, traficante, estuprador de meninas, R$ 1,2 mil para ele levar boa vida em Buenos Aires? Eu não estou fazendo nenhum tipo de acusação (...), mas lugar de bandido é na cadeia, e não dançando tango em Buenos Aires", ironizou.
"Se isso continuar acontecendo, amanhã todos vão dizer: vamos assaltar, porque o João (Moreira Salles) ajuda". O governador contradisse mais uma vez seu coordenador de Segurança
classificando a atitude do cineasta como "crime". Depois da entrevista no Laranjeiras, Soares contou que, em dezembro, quando soube da história, ele e Salles procuraram ouvir criminalistas e "todos foram unânimes em dizer que não havia crime, porque não havia dolo". Minutos antes, porém, Garotinho havia colocado dúvidas sobre a verdadeira intenção do cineasta.
"Eu não estou fazendo nenhum tipo de acusação, mas, quer ajudar, paga escola para 200 crianças, constrói um centro comunitário, uma creche, no Dona Marta (morro dominado pela quadrilha de Marcinho VP)", afirmou o governador. Quintal também reforçou o ponto de vista de Garotinho: "Não acredito que esse traficante seja capaz de uma regeneração, da forma como foi proposta pelo João Salles". Revelação - Outro momento da entrevista que causou constrangimento foi quando Soares confirmou que tanto ele quanto o próprio Quintal sabiam desde de dezembro que Salles já vinha pagando dinheiro ao traficante. A revelação foi feita em um encontro entre os três. Ontem, o secretário de Segurança confirmou o encontro, mas negou que a revelação havia sido feita. Diante do governador, porém, Quintal disse ter se lembrado "vagamente" do comentário.
"O Salles é meio sonhador, achei ele meio ingênuo, mas eu respeito a relação dele com o criminoso, embora eu tenha avisado a ele que o Marcinho VP era um dos alvos prioritários da polícia", disse o secretário, sem explicar o motivo de a denúncia ter sido abafada durante tanto tempo - só no último domingo, Salles tornou o assunto público. O encontro de dezembro havia ocorrido à pedido do próprio cineasta que, segundo Garotinho, já havia sido comunicado pela polícia da existência de várias ligações do celular do traficante para sua casa.
Apesar das divergências na equipe de governo, Garotinho garantiu que elas não vão atrapalhar em nada a implementação de sua política de Segurança - sua provável bandeira para alavançar sua candidatura à sucessão presidencial em 2002. "Nao há um conflito essencial; todos nós entendemos e reafirmamos na reunião que o Marcinho VP é um bandido, fora da lei, foragido, um cidadão que cometeu crimes bárbaros, e por isso deve ser preso", ponderou.
O governador lembrou, porém, que a polícia vai investigar a ajuda do cineasta ao traficante, que deverá depor no inquérito já aberto na Corregedoria de Polícia Civil. "A nossa política de segurança não separa bandido pobre de bandido rico; não estou dizendo que ele é bandido, mas ele terá o tratamento policial que os outros cidadãos têm", afirmou Garotinho.