Rio, 17 (AE) - O governador do Rio, Anthony Garotinho, considerou um exagero o uso de fuzis e o grande aparato de segurança usado para prender a representante comercial Rosimeri Moura da Costa, de 34 anos, por fazer topless em um trecho da praia da Reserva Biológica do Recreio, zona norte da cidade, ontem. Garotinho alegou que isso não é prioridade de sua política de segurança e chegou a ironizar o caso. "Não há nenhuma orientação do governo de combater isso (o topless) à bala", disse, rindo. O governador não descartou porém, a possibilidade de a polícia voltar a prender banhistas que agirem da mesma forma, desde haja denúncia.
Rosimeri foi detida por 20 policiais armados de fuzis da 7ª Companhia Independente da Polícia Militar e levada para a 16ª Delegacia Policial, na Barra da Tijuca. Lá, foi autuada com base no artigo 233 do Código Penal (ato obsceno), cuja pena é de três meses a um ano de prisão, e responderá pelo crime em liberdade. Seu marido, Antônio Saraiva, de 62 anos, também foi autuado, acusado de resistência a um ato legal e, para ser liberado, pagou fiança de R$ 150.
Garotinho disse que desconhecia a prisão da representante comercial. Ele estava descansando com a família em Campos, no norte do Estado, ontem, quando ocorreu o fato. "Provavelmente, a polícia deve ter agido em função de alguma denúncia, alguém se sentiu incomodado, agredido", avaliou. "Eu
particularmente, acho que quando você não quer olhar, não precisa chamar a polícia, basta não olhar". O secretário de Segurança, Josias Quintal, não se manifestou sobre o caso. Nudismo - O secretário municipal de Meio Ambiente, Maurício Lobo
decidiu aproveitar a polêmica e, hoje mesmo, reuniu-se com o presidente da Associação de Naturalistas da Praia do Abricó (na região oeste do Rio), Pedro Ricardo Assis Ribeiro, para discutir a criação de uma área de praia específica para o nudismo na cidade, onde o praticante estará protegido da repressão policial.
"Ainda estamos buscando um local, só não podemos deixar que seja na reserva do Recreio porque ali é, como diz o nome, uma área de preservação vegetal", afirmou. Na segunda-feira, os dois se reúnem novamente para estabelecer qual será a primeira praia de nudismo autorizada do Rio. "Temos quase 50 quilômetros de orla e não será difícil estabelecer um trecho para os naturalistas", explicou Lobo.
Ainda em tom de ironia, Garotinho comparou o caso de Rosimeri com o desfile da Tradição, no último carnaval, que assistiu no camarote do governo do Estado. Na ocasião, a escola trazia um time de belas mulheres à frente da bateria: as modelos Suzana Alves, a Tiazinha, a loira Alessandra Scatena e Rosiane Pinheiro - segunda colocada no concurso da morena do grupo baiano É o Tchan. Nenhuma das três, no entanto, estava de topless.
"A Tiazinha passou por mim e o pessoal perguntou: Você viu a Tiazinha? Aí, eu disse: Não; e sabe por que? Porque os olhos são a janela do pecado". O governador preferiu omitir - talvez por precaução - a outra parte da história: a de que ele assistia ao desfile ao lado da ciumenta primeira-dama Rosângela Matheus, a Rosinha.
Carnaval - O delegado da 16ª DP, Napoleão Salgado, defendeu a ação dos policiais da 7ª CIPM, mas encontrou uma forma peculiar para tentar explicar porque a PM não age da mesma forma na Avenida Marquês da Sapucaí, onde o topless é quase uma regra entre as mulheres. "Olha, há uma diferença: o carnaval é uma tradição brasileira e ali, o que vemos, é o nu artístico, uma manifestação artística-cultural, em que pessoa incorpora um personagem", tentou explicar o delegado.
"Já no caso da Rosimeri, não há paralelo, porque foi uma situação do cotidiano, na qual ela feriu a ordem pública". De ré à vítima, Rosimeri ainda estava indignada com a prisão que comparou, exageradamente, à ação da igreja durante a Inquisição. "O que aconteceu comigo e com o meu marido é algo do século passado", retrucou. Ela explicou que há cinco anos faz topless na Reserva Biológica do Recreio e nunca teve nenhum problema. Contou que ela e mais quatro amigas estavam sem o sutiã do biquíni, quando dois policiais chegaram ao local e pediram para que virasse de bruço.
"E foi isso o que fizemos", alegou. Mas, por volta de 16 horas, um tenente identificado por Henrique foi ao local, acompanhado de 20 policiais armados, e obrigou que as mulheres tapassem os seios. Rosimeri protestou e acabou presa. "Todas as amigas dela se compuseram menos ela", disse o delegado. "Não pus o sutiã porque estava sem ele na bolsa", rebateu.

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