Rio, 08 (AE) - Sob pressão de nova denúncia contra a sua administração, o governador Anthony Garotinho (PDT) anunciou hoje pretender levar 20 mil pessoas a uma manifestação de apoio a seu governo, no próximo dia 1º de maio, na Cinelândia, no centro do Rio, e fez um desabafo. Ele atribuiu os ataques que seu governo tem sofrido ao fato de ter decidido apurar o suposto envolvimento do documentarista João Moreira Salles, filho de Walter Moreira Salles, dono do Unibanco, com o traficante Márcio Amaro de Oliveira, o Marcinho VP. O pedetista afirmou estar enfrentando, por isso, forças poderosas.
"O governador está sendo difamado porque quer que um cidadão rico seja, diante da Justiça, igual a um cidadão pobre; estou sofrendo pressões de tudo quanto é lado para ver se volto atrás", disse ele no programa "Fala, Governador", na Rádio Tupi, procurando se apresentar como vítima de uma campanha difamatória. "Vocês não vão me destruir, vocês não vão desmoralizar o governador do Rio de Janeiro."
Garotinho não comentou a denúncia de que o seu secretário de Justiça, Antônio Oliboni, firmou, como advogado, em 1996, um documento com a Brasal, fornecedora de comida para presos sob custódia da secretaria, segundo o qual receberia honorários de R$ 854 mil. Dessa quantia, R$ 754 mil seriam quitados mediante percentual de 3% sobre as vendas da comida. O fato aconteceu na administração anterior, mas aumentou a carga sobre o secretário, acusado de, como em governos que o antecederam, não licitar o fornecimento de "quentinhas" (marmitas) - um negócio de R$ 55 milhões anuais - e, pior, para um ex-cliente que lhe fez ou faz pagamentos.
O governador atribuiu todas as denúncias de corrupção contra o seu secretariado a uma campanha difamatória para derrubá-lo que, segundo ele, estaria sendo movida porque seu governo vem contrariando muitos interesses. "Pela primeira vez estamos colocando o dedo na ferida e contrariando interesses tremendos", afirmou. "Eu não posso, como governador, pedir ao delegado de polícia que não instaure inquérito porque o rapaz é filho do dono do Unibanco: a lei é igual para todos."
Religioso e evangélico, Garotinho pediu às pessoas que orem por ele, para lhe dar forças. "Essa é uma batalha muito forte, uma batalha espiritual: de um lado pessoas muito poderosas, donas de uma das maiores fortunas do País; e do outro lado o governador do Estado", afirmou. "Querem que a lei no Brasil só sirva para o morador do subúrbio, para o morador da favela."
O governador estranhou que, a despeito de tudo o que vem fazendo de bom pelo Estado, esteja sendo alvo de tantas denúncias. "Ninguém publica uma linha das coisas boas; é só pau
pau, pau, pau." O governador garantiu, no entanto, que irá apurar as denúncias contra seus secretários. "Se por acaso algum colaborador tiver feito alguma coisa errada, não vou dar refresco", disse. "Mas também não vou sair condenando as pessoas como querem que eu faça; o próprio rapaz (Moreira Salles) que está respondendo a inquérito policial tem direito à defesa." O governador afirmou que vem tratando do problema da forma mais transparente possível. "Estou encaminhando tudo para o Ministério Público apurar; quem agiu mal será punido não só com a perda do cargo, mas também criminalmente", garantiu.
Garotinho classificou as acusações que recebeu de "massacre". "Não sou político como esses ladrões que andam por aí não", atacou. "Não tentem me botar nessa panelinha de corruptos, estou fora disso." Ele disse estar cumprindo a lei no caso Salles e que vai fazê-lo para pobres e ricos. Ontem o documentarista foi indiciado pela Polícia, sob a acusação de "favorecimento pessoal" a Marcinho. Salles confessou ter dado dinheiro ao traficante, para que escrevesse um livro e deixasse o crime.

mockup