São Paulo, 13 (AE) - No primeiro dia de trabalho de volta à Prefeitura, hoje, o ex-deputado Hanna Garib começou a perceber a diferença que o separa dos demais servidores municipais, com quem vai conviver pelos próximos meses.
Acusado de comandar um esquema de corrupção na Administração Regional da Sé, Garib perdeu seu mandato na Assembléia Legislativa e agora terá de reassumir seu cargo de contador na Prefeitura, até conseguir sua aposentadoria. Hoje, ele informou "já estar correndo atrás da papelada".
Em um Gol vermelho do ano, guiado por um motorista que havia acabado de violar o rodízio municipal (o final da placa é 2), ele chegou à Supervisão Geral de Transportes Internos, por volta das 7h50, dez minutos antes do horário de início do expediente, vindo da Vila Mariana. Seu carro era o mais novo do estacionamento.
Enquanto isso, o mecânico J., que também está prestes a aposentar-se na Prefeitura, tentava chegar no mesmo horário, enfrentando uma maratona de ônibus e trem. Morador do Itaim Paulista, ele calcula levar duas horas no percurso.
Terno e macacão - Vestindo terno, abotoaduras e relógio de marca, logo na entrada Garib se destacava. No local, até seu superior, o supervisor geral do setor, o engenheiro Paulo Lázaro
usava camisa social e calça jeans. A maioria do pessoal é composta de mecânicos, com uniformes azuis e sujos de graxa. Entre os engenheiros, a roupa-padrão é semelhante à de Lázaro. Ao todo, são 220 funcionários, que fazem de 40 a 60 reparos de veículos por mês.
Após receber as primeiras instruções, Garib dirigiu-se ao seu local de trabalho, o Setor de Inspeção Técnica de Veículos. O ex-deputado, que em seus gabinetes tinha sala própria, agora divide o mesmo espaço com mais quatro pessoas. Ele tem, porém, mesa própria.
Sua função, nem seu chefe sabe ao certo qual é. "Vamos ter de adaptá-lo, porque não precisamos de mais contadores aqui." Segundo Lázaro, o trabalho de Garib será receber veículos com problemas, preencher planilhas, descrevendo as falhas, e encaminhá-las a setores responsáveis. "A função dele é semelhante à de um funcionário de uma revenda autorizada", resume o supervisor.
Para realizar essa tarefa, ele ganhará salário integral como contador da Prefeitura, que gira em torno de R$ 5.000. É mais que o dobro do que ganha seu chefe de setor e dez vezes mais que o rendimento mensal de J., aquele que pega um ônibus e um trem para ir e voltar do serviço.
Sem almoço - À tarde, diante da insistência da imprensa, divulgou uma nota: "Com tristeza que vejo tantas notícias a meu respeito... Tenho que cumprir a lei... jamais poderia receber sem trabalhar." Ele afirmou também que as denúncias contra ele "não darão em nada" e emagreceu 10 quilos após a cassação.
Diante da situação, Garib tentou esforçar-se. Entrou pontualmente no setor, não usou seu intervalo de almoço - uma hora - e ficou até o fim do expediente, às 17 horas, quando pegou um táxi, que saiu cantando pneus. Ele tinha dispensado o motorista com seu Gol, minutos antes, para não desrespeitar novamente o rodízio.
No fim do expediente, em que não tomou a fila para bater ponto
classificou o dia como "normal". "Estou aprendendo, mas o que farei é o controle de veículos, peças, entrada e saída, mexer com planilhas", disse. O ex-deputado afirmou não se ter cansado com o expediente de nove horas e riu ao ser lembrado que não tinha almoçado.

mockup