São Paulo, 15 (AE) - O deputado estadual Hanna Garib (PPB), acusado de ser um dos chefões do esquema de corrupção nas administrações regionais de São Paulo, tomou posse hoje às 15h39 sob vaias da galeria, numa das mais tumultuadas cerimônias já ocorridas na Assembléia Legislativa de São Paulo. A sessão, para a efetivação dos 94 deputados eleitos, serviu de palco para protestos contra Garib e contra o prefeito Celso Pitta (PPB), presente no plenário e muito criticado. A confusão teve seu ápice com a "fuga" de Garib, que pediu licença para ir ao banheiro, mas desapareceu pelas escadarias, acompanhado de seus assessores.
De uma coisa Garib tinha certeza: sua presença não era bem-vista e toda a confusão apontava para a sua provável cassação. De acordo com o novo presidente da Casa, Vanderlei Macris (PSDB), o primeiro ato da nova Mesa Diretora será coordenar a formação de uma Comissão de Ética para iniciar os trabalhos de investigação, que podem culminar no afastamento de Garib. "A Assembléia não pode curvar-se a uma situação como essa e vamos tomar uma atitude amanhã ", afirmou Macris.
"Estou tentando me esconder", disse o vereador Salim Curiati Júnior (PPB), que, contra sua vontade, fora colocado ao lado de Garib. Outros deputados do partido tentavam afastar-se de Garib. Temiam ser fotografados e filmados ao lado dele. "Hanna é um gambá que está incomodando a Casa", afirmou o deputado Afanásio Jazadji (PFL).
Comenta-se nos bastidores que 90% dos deputados da Assembléia são favoráveis à saída imediata do deputado. Não foi só essa a consequência das constantes denúncias contra o Garib. Hoje a executiva do PPB decidiu suspendê-lo .
Inimigo solidário - As críticas ao prefeito Celso Pitta - que suportou gritos de "fora, ladrão; vá para o xadrez" durante toda a sessão - foram tantas que até o governador Mário Covas, em seu discurso, tentou amenizar os protestos. Repetiu o nome de Pitta várias vezes até que as vaias cessassem, numa manifestação de respeito. Muitos deputados empossados não conseguiram sequer ler seus discursos, tamanho o barulho dos populares.
Quanto a Garib, os insultos das galerias, por vezes, ultrapassavam minutos consecutivos. O deputado tentava esquivar-se, cercado da família e de assessores, que faziam um círculo em seu redor e o protegiam do assédio da imprensa. Disse
a respeito da cassação e das denúncias de sua participação no esquema de corrupção, poucas palavras. "Não estou preocupado com essas acusações", afirmou. "Só falam em ouvi dizer; ninguém tem provas concretas contra mim."
Garib assegurou que vai entrar com recurso contra a liminar que pede sua suspensão do partido. Quanto à cassação, disse que "não é para se pensar agora", pois há um processo a ser feito antes de o pedido ser votado. O clima de tensão era tanto que surgiram boatos de agressão contra a filha de Garib, Vanessa. Em outro momento, falava-se que um homem armado circulava pelo plenário. Nenhuma das situações foi confirmada pela Polícia Militar.
Comissão - O deputado Walter Feldmann (PSDB), líder do governo, explicou que a Comissão de Ética - o primeiro passo para o processo de cassação - será formada por nove deputados e deve estar concluída até sexta-feira. Amanhã o deputado Arnaldo Jardim (PMDB) apresenta proposta de emenda à Constituição Estadual que modifica a imunidade parlamentar dos deputados. Se aprovada, pode permitir que Garib seja processado criminalmente.
A movimentação para a cassação do deputado estadual Hanna Garib começou bem antes de sua posse. O deputado Afanasio Jazadji (PFL) distribuía, antes da sessão, panfletos que destacavam as acusações contra Garib. "Depoimentos, feitos à exaustão, o apontam como chefe de quadrilha de maus políticos e péssimos funcionários que extorquem dinheiro até de indefesos velhinhos", dizia o texto.
Jazadji também começou a recolher assinaturas para compor um abaixo assinado para pedir a reaberturar da CPI do Crime Organizado, que presidiu nos últimos anos, na qual pretende inclui investigações sobre Hanna Garib. São necessárias 48 adesões.
O deputado Arnaldo Jardim (PMDB) ia mais longe. Anunciava uma ampla proposta de emenda à Constituição Estadual para modificar a imunidade parlamentar, com o slogan: "A impunidade de alguns compromete o Legislativo." A emenda que, segundo ele, deve ser apresentadaamanhã , é uma adaptação para o Estado da iniciativa do presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), que restringe a imunidade aos crimes de opinião e facilita a abertura de processo contra parlamentares. Por ser deputado, Garib estaria isento de responder a processos criminais.
De concreto, porém, ficou a afirmação do novo presidente da Casa, Vanderlei Macris (PSDB), que prometeu instalar a Comissão de Ética até sexta-feira. Esse seria o primeiro passo para a cassação.
A comissão, suprapartidária, tem de ser composta por nove deputados, que analisarão os documentos sobre a possível participação de Garib no esquema de corrupção. Há um prazo de cinco sessões para que essa análise seja feita. O parecer ou relatório final deve ser apresentado no mesmo prazo - cinco sessões - para, depois, ser enviado para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). A CCJ elabora, então, um projeto de decreto legislativo, propondo ou não a cassação, com o mesmo prazo. Só então o pedido chega à presidência da Casa, que o coloca em apreciação. O todo o trâmite não ultrapassa os três meses, garantem os deputados.

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