Paris, 08 (AE-ANSA) - A nova geração de líderes políticos, econômicos, sociais e culturais que governarão a América Latina no próximo milênio deverá cumprir a "tarefa histórica" de "remediar as ofensas" do passado, advertiu hoje (08) em Paris o escritor Gabriel García Márquez.
O prêmio Nobel colombiano abriu hoje na sede da UNESCO as discussões de um fórum sobre os desafios do desenvolvimento da América Latina no século 21, no marco da Assembléia anual de governadores do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) que será realizada em Paris de 15 a 17 de março.
Na cerimônia de abertura do fórum, que reúne uma centena de responsáveis latino-americanos menores de 40 anos, também estiveram a prêmio Nobel da Paz Rigoberta Menchú, o diretor geral da UNESCO, Federico Mayor, e o presidente do BID, Enrique Iglesias.
"Não esperem nada do século 21. É o século 21 que espera tudo de vocês", disse García Márquez, depois de começar seu discurso com uma frase "envenenada" do escritor italiano Giovanni Papini nos anos 40: "A América foi feita com os restos da Europa".
"Hoje não só temos razões para suspeitar que isto é certo - acrescentou o prêmio Nobel - como também algo mais triste: a culpa é nossa".
O escritor recordou que Simón Bolívar já o havia previsto em sua Carta da Jamaica, quando quis criar a consciência de uma identidade própria, "uma pátria maior, mais poderosa e mais unida".
"No fim de seus dias, mortificado por uma dívida com os ingleses que ainda não acabamos de pagar e atormentado pelos franceses que tratavam de vender-lhe os últimos trastes de sua revolução, suplicou-lhes: Deixem-nos fazer tranquilos nossa Idade Média".
Assim, a América Latina acabou sendo "um laboratório de ilusões perdidas".
"Nossa virtude maior é a criatividade, e entretanto não temos feito muito mais do que viver doutrinas requentadas e guerras alheias, herdeiros de um Cristóvão Colombo desventurado que nos encontrou casualmente quando buscava a Índia", acrescentou García Márquez.
Referindo-se ao distanciamento que vivem os latino-americanos, ele assinalou que historicamente tem sido "mais fácil" nos descobrir a partir do Bairro Latino de Paris do que "desde qualquer de nossos países".
Breve mas direto, García Márquez dirigiu-se a "vocês, sonhadores com menos de 40 anos", a quem "cabe a tarefa histórica de remediar essas ofensas descomunais".
"Lembrem que as coisas deste mundo, desde os transplantes de coração até as sinfonias de Beethoven, estiveram na mente de seus criadores antes de estar na realidade. Não esperem nada do século 21. É o século 21 que espera tudo de vocês", advertiu.
"Um século que não vem pronto da fábrica, mas sim pronto para ser forjado por vocês à nossa imagem e semelhança, e que só será tão grandioso e nosso quanto sejam capazes de imaginá-lo", acrescentou.
Durante os dois dias do fórum, os representantes latino-americanos do mundo político e institucional, empresarial, sindical e de organizações não governamentais deverão discutir quatro temas básicos: desafios do desenvolvimento, democracia e instituições políticas, cultura e sociedade, e globalização.

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