Curitiba

Marcelo AlmeidaHomem-caixaJoão Freitas: ‘‘O pessoal que passa por aqui adora brincar comigo e me chamar de Schumacher’’. Ele diz que poderia estar numa situação melhor se tivesse os documentos que faltam para se aposentarChova ou faça frio de lascar, eles estão lá. Uns por falta de abrigo, outros na luta pela sobrevivência. Juntos, porém, na galeria de anônimos da Rua XV de Novembro, um dos cartões postais de Curitiba. Um breve passeio por ali permite conhecer personalidades, como o homem-caixa, o grafiteiro clandestino, a drag queen indignada, o velhinho do cachimbo. Gente simples, que toca a vida a seu modo, afinada apenas com a própria consciência.
É o caso de João Freitas, um alagoano que dorme sob a marquise de uma livraria. Sua ‘cama’ é feita com caixas que acondicionaram sabão em barra e televisores. Como a cabeça fica de fora, a imaginação faz o leito improvisado mais parecer o cockpit de um carro de Fórmula 1. ‘‘O pessoal que passa por aqui adora brincar comigo e me chamar de Schumacher’’, diz o homem-caixa, numa referência ao piloto alemão Michael Schumacher. Na verdade, seu cotidiano está bem longe do glamour que cerca o mundo automobilístico.
Freitas diz que sobrevive como pedinte. ‘‘Me aproximo das pessoas, peço uma ajuda e algumas dão’’, conta. Meio atordoado por ter sido acordado pela reportagem da Folha, ele aproveita para lamentar: ‘‘Poderia estar numa situação melhor se tivesse os documentos que faltam para conseguir minha aposentadoria’’. Debaixo de uma espuma que o protege contra o rigoroso inverno curitibano, o homem-caixa dá uma pausa na conversa, suspira profundamente e tenta se lembrar da vida como ela era.
‘‘Morava com minha família em Antonina, no litoral, mas roubaram tudo o que a gente tinha’’, recorda. Freitas, supostamente sexagenário, acrescenta que a família foi novamente roubada após a chegada a Curitiba, dez meses atrás: ‘‘Aí cada um procurou seu rumo’’. No caso do homem-caixa, o caminho da rua. A lembrança da mulher e do filho resgata a saudade. Sereno, ele põe as mãos na cabeça e se esforça para evitar o choro. Consegue. Talvez seu nome, a idade e os fatos nem sejam verdadeiros, possibilidade reforçada pelo vacilo que pauta o depoimento. Já a emoção, certamente, é autêntica.

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