Gaeco e PM cumprem mandados relacionados a incêndio que destruiu vila em Curitiba
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sexta-feira, 18 de janeiro de 2019
Rafael Costa <br> Reportagem Local 
Curitiba - O Gaeco (Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado) e a Corregedoria da PMPR (Polícia Militar do Paraná) cumpriram nesta sexta-feira (18) dez mandados de busca e apreensão relacionados a investigações acerca do incêndio que destruiu mais de cem casas na ocupação 29 de Março (chamada pelas autoridades de Vila Corbélia), na Cidade Industrial de Curitiba, no dia 7 de dezembro - em uma sequência de acontecimentos que também incluiu o assassinato de um policial e dois moradores da favela.
A série de eventos em torno do incêndio começou no início da madrugada do dia 7, quando o policial militar Erick Norio foi morto, segundo a PM, ao atender uma ocorrência de perturbação de sossego. A polícia iniciou as buscas pelo autor dos disparos imediatamente, cercando o local e fazendo incursões ao longo de todo o dia 7. Neste período, o primeiro morador foi encontrado morto, a alguns quilômetros da vila. À noite, uma nova ocorrência: foram relatados disparos contra um motorista de aplicativo no local. O incêndio teria começado logo em seguida e se espalhado rapidamente, sendo controlado apenas na madrugada do sábado (8). Neste período, foi encontrado o segundo cadáver.
Moradores da vila denunciaram abusos ocorridos durante a operação da PM - que teria incluído invasões sem mandado judicial, arrombamentos, tortura, tiros e ameaças - e acusaram policiais de serem responsáveis pelo incêndio criminoso e pelos dois assassinatos. A versão foi inicialmente repudiada pela polícia, que sustentou que os dois moradores mortos tinham envolvimento com o crime organizado. Após o surgimento de um vídeo que mostra dois homens com coletes da polícia disparando contra casas e mandando moradores entrarem, a suspeita deixou de ser descartada pela corporação.
As denúncias também mobilizaram o Gaeco, que investiga se houve crimes cometidos pelos PMs juntamente com a Corregedoria - que apura o envolvimento de policiais em "transgressões de natureza militar". Há um IPM (Inquérito Policial Militar) que também deve investigar eventuais infrações administrativas.

À FOLHA, o coordenador estadual do Gaeco, Leonir Batisti, disse que a investigação busca, além de esclarecer os autores das mortes e dos incêndios, averiguar estes relatos, também ouvidos pelo MPPR. A tentativa de homicídio contra o motorista de aplicativo também será esclarecida. "A investigação começou dois ou três dias após o evento", contou Batisti. "Já ouvimos pessoas, buscamos outras provas e, agora, houve a busca e a apreensão", disse.
As investigações correm paralelamente aos inquéritos policiais. A DHPP (Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa) apura as duas mortes, ainda sem suspeitos e sem uma linha principal de investigação. Já o incêndio é investigado pela Deam (Delegacia de Explosivos, Armas e Munições). O inquérito não avançou por falta de testemunhas dispostas a depor, segundo informações da Sesp (Secretaria da Segurança Pública). Já a investigação sobre a morte do policial está concluída. O acusado, que confessou ter matado Norio, está preso e já foi denunciado.
Os mandados foram cumpridos nesta sexta em Curitiba, Campo Largo, Guaratuba e Piraquara. Oito deles foram expedidos pela 1ª Vara do Tribunal do Júri de Curitiba, a pedido do Gaeco, e dois pela Vara da Auditoria Militar, a pedido da Corregedoria. A maioria ocorreu em residências. O objetivo foi apreender armas, celulares e documentos, entre outros itens.
O procurador de Justiça não revelou se as casas que foram alvos de buscas são de policiais. "Estamos num início de investigação, e qualquer revelação adicional poderia nos atrapalhar", disse.
MORADORES
Segundo Edna Bacilli, uma das coordenadoras Vila Dona Cida - ocupação adjacente à 29 de Março, onde várias famílias desalojadas pelo incêndio estão abrigadas em residências de conhecidos -, foram perdidas 105 casas na tragédia.
Com a desistência de algumas famílias, está prevista a reconstrução de 98 casas. Já foram levantadas 21 unidades em uma iniciativa da ONG Teto, e outras duas com apoio de movimentos de moradia. "As famílias estão se realocando novamente para dentro da comunidade", contou Bacilli. "Mas ainda faltam muitas casas", disse, ressaltando que os moradores ainda buscam por doações de materiais de construção para reconstruir a vila.


