G-7 racha e rejeita regulamentação de capitais Do correspondente Paulo Sotero
AMHERST, Massachusetts, EUA, 21 (AE) - Para o bem ou para o mal, o que acontecer na economia brasileira nos próximos três meses terá um peso significativo na evolução do racha que se cristalizou no último fim de semana entre os governos das principais potências econômicas, sobre a melhor maneira de conter a volatilidade dos fluxos internacionais de capitais, que precipitou as crises financeiras na ásia, na Rússia e, agora, no Brasil. Como estava previsto, uma proposta da Alemanha e da França, de regulamentação do mercado de capitais, criando-se um regime de banda larga de flutuação cambial para as três principais moedas do sistema financeiro - o dólar, o euro e o iene - foi sumariamente rejeitada pelos Estados Unidos, com a ajuda dos bancos centrais dos próprios países europeus, durante durante reunião dos ministros das finanças e dos presidentes dos BCs do Grupo dos Sete, ontem, em Bonn.
Para atenuar a divisão entre as democracias ricas e aliadas, criou-se uma comissão, o Fórum sobre Estabilidade Financeira. A idéia, que partiu do presidente do Bundesbank alemão, Hans Tietmeyer, é reunir cerca de 35 executivos de governos, agências reguladoras e instituições financeiras globais duas vezes por ano para discutir propostas sobre como fortalecer o sistema financeiro a partir das organizações existentes.
Um relatório preparado pelo Bundesbank aconselhou o Grupo dos Sete países industrializados (G-7) a considerar a necessidade de uma maior regulamentação dos mercados de capitais, especialmente dos fundos especulativos "hedge".
A idéia tem o respaldo do homem que controla o maior fundo privado desse tipo, o megainvestidor George Soros.
Proposta esvaziada - A confirmação de boas notícias no Brasil, como as previstas pelo economista Arturo C. Porzecanski, do ING Barings, na edição de hoje do Estado reforçarão a posição dos EUA na cúpula anual dos líderes das potências industriais (mais a Rússia), programada para a segunda quinzena de junho em Colônia, na Alemanha. Um agravamento da crise ou novos colapsos nos chamados mercados emergentes darão mais munição à proposta franco-alemã.
A divisão no G-7 reflete as tensões criadas pelo impacto da crise financeira global em suas economias. Antes de partir para Bonn, na semana passada, o secretário do Tesouro, Robert Rubin, conclamou os governos do Japão e da Europa a aprofundar as reformas estruturais de suas economias para liberá-las das amarras que impedem um crescimento mais vigoroso, puxado pelo consumo interno. Com a notícia ainda fresca do déficit recorde da balança comercial norte-americana em 1998, provocado principalmente pela queda da demanda por bens e serviços produzidos nos EUA por parte dos mercados emergentes em crise, Rubin advertiu que os Estados Unidos não podem continuar a ser o único grande importador do planeta.
O presidente do BC Europeu, o holandês Win Duisenberg, respondeu com os mesmos argumentos de Rubin às críticas sobre sua recusa em reduzir as taxas de juro do euro, que se desvalorizou de $ 1,17 para $ 1,10 em relação ao dólar em suas seis primeiras semanas de existência. Duisenberg disse que os governos da França e da Alemanha precisam fazer mais para desregulamentar suas economias e remover as barreiras estruturais que desestimulam os negócios.
A economia do Japão, a segunda maior do planeta, continua atolada na estagnação. A Alemanha, maior Produto Interno Bruto (PIB) da Europa e terceiro do mundo, também já se ressente dos efeitos da crise nos mercados emergentes. Na véspera da reunião do G-7, o Bundesbank confirmou que a economia alemã encolheu 0 4% no último trimestre de 1998, por causa da queda da por suas exportações para a ásia e para a América Latina.
Comando - A reunião de Bonn confirmou que, sem o apoio dos EUA
nenhum plano alternativo de reforço do sistema financeiro internacional tem futuro. Analistas e funcionários de governos reconhecem que Rubin, seu vice, Lawrence Summers, e o presidente do Federal Reserve, o BC americano, Alan Greenspan, continuam solidamente no comando das operações de contenção da crise financeira global e de seus efeitos.
Ao mesmo tempo, como notou hoje o jornal norte-americano The New York Times em seu editorial principal, já se admite, na própria administração americana, que os EUA também têm culpa no cartório do desastre econômico internacional.
Washington "deixou-se levar pela euforia do início dos anos 90 e forçou os países em desenvolvimento a abrir seus mercados para o capital estrangeiro quando eles não estavam preparados" para recebê-los... As crises precipitadas pelas fugas desses capitais provocaram "horrendos custos humanos", afirmou o Times. "As nações ricas e os investidores estavam cegos para as fragilidades da expansão mundial e suas soluções iniciais, quando o colapso começou, o que tornou as coisas piores."
É contra esse pano de fundo que a evolução da economia brasileira nos próximos meses assume importância. Mesmo que os reflexos globais de um eventual agravamento da crise brasileira sejam bem menores que o poder de contágio revelado pelos colapsos da Coréia do Sul, da Tailândia e da Rússia, como afirmam investidores e analistas, más notícias no Brasil pesarão na disputa política em curso no G-7 sobre a chamada nova arquitetura do sistema financeiro global.





