Londres, 13 (AE-REUTERS) - O futuro da Otan está sendo decidido numa guerra que tem forçado os aliados a resolverem na prática problemas sobre os quais eles não concordam na teoria.
Quando líderes da aliança reunirem-se em Washington na semana que vem para a cúpula do 50º aniversário da Otan, eles terão estabelecido um precedente para uma nova e intervencionista Otan, cujos braços chegarão a regiões além de suas fronteiras - algo bem diferente do pacto de defesa do passado.
A aliança está promovendo sua primeira guerra ofensiva contra um Estado soberano sem um mandato da ONU para, segundo ela, evitar um desastre humanitário e proteger direitos humanos.
"Kosovo cria vários precedentes. Com o consentimento geral, nações estão atropelando o Artigo 2 da Carta da ONU sobre não interferência em assuntos internos de Estados, alegando que estão protegendo um grupo popupacional em perigo", disse William Hopkinson, chefe do programa de segurança internacional do Instituto Real de Assuntos Internacionais, da Grã-Bretanha.
"Pela primeira vez, a Otan partiu para a ofensiva. Isto também é um precedente desde que a questão-chave no século 21 será a intervenção e o desenvolvimento de uma lei internacional usual para justificá-la", afirmou ele.
Cada vez mais, segundo especialistas, a principal missão da Otan será exportar segurança para os Bálcãs e Europa Oriental mais do que defender território aliado contra um improvável ataque, agora que a Rússia é uma mera sombra da antiga União Soviética.
A questão de até onde a aliança ocidental irá operar será provavelmente definida em Washington. Os Estados Unidos negam que queiram fazer da Otan uma polícia global para áreas como o Oriente Médio e Sul da ásia.
Futuras intervenções provavelmente ocorrerão com base numa avaliação caso a caso, com uma "coalizão dos interessados" usando recursos da Otan onde a aliança aprovar.
Vários aliados da Otan, liderados pela França, argumentavam até recentemente que o Conselho de Segurança da ONU deveria continuar sendo o único órgão com poder de autorizar o uso da força.
Ainda assim, na crise de Kosovo, eles concordaram em agir numa emergência, ao invés de permitir que a Rússia e a China vetassem a ação da Otan.
"A França tinha na verdade posições contrárias sobre a necessidade de um mandato da ONU e restrições sobre atividades fora da área (da Otan). Os eventos em Kosovo fizeram com que apressassemos a superação destas velhas, teóricas posições", disse um alto oficial francês.
A guerra de Kosovo também tem deixado mais claro o papel de um círculo íntimo, ou "directoire", das grandes potências dentro da Otan - os Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Alemanha e neste caso a Itália - na tomada de decisões-chaves.
Enquanto a Otan se expandia de 16 para 19 membros, com a entrada da Polônia, Hungria e República Checa no mês passado, autoridades reconheceram que a maiora das decisões é tomada em ligações telefônicas entre Washington, Londres, Paris, Bonn e Roma.
Se a crise fosse nos Bálticos ao invés de nos Bálcãs, a Itália provavelmente não estaria no barco. Mas como um porta-aviões insubmergível da Otan para operações em Kosovo e Bósnia, o país tem hoje um lugar no topo da mesa.
Se em 10 dias a campanha aérea aliada ainda estiver se desenrolando e o presidente iugoslavo, Slobodan Milosevic, ainda não tiver se curvado, o que é o mais provável para os analistas, líderes da Otan podem vir a debater na cúpula o lançamento de uma ofensiva terrestre.
"A guerra é até agora um desastre. A Otan garante que está inflingindo grandes danos, mas eles ainda não modificaram nada. Enquanto isto, Milosevic está vencendo a guerra demográfica em terra, expulsando os albaneses étnicos de Kosovo", disse Dana Allin, uma especialista em Bálcãs no Instituto Internacional para Estudos Estratégicos.
Especialistas militares afirmam que levaria pelo menos um mês para se preparar uma guerra terrestre, que exigiria cerca de 100.000 homens, mas os Estados Unidos e a Grã-Bretanha têm até agora descartado resolutamente o envio de tropas para um "ambiente não- permissivo".
Líderes da Otan ainda podem considerar que uma ofensiva terrestre não é necessária, mas eles concordam que a aliança ocidental não pode fracassar numa guerra contra o que eles próprios rotularam de "genocídio" e "limpeza étnica".
Outra questão da cúpula sobre a qual Kosovo está estabelecendo um precedente é a tentativa da União Européia de desenvolver uma política de defesa comum e tornar-se um segundo pilar mais forte da Otan.
A guerra contra a Iugoslávia tem sublinhado a superioridade militar e tecnológica dos EUA e consolidado a posição da aliança como uma organização primária de segurança no continente para muito tempo, diz a maioria dos analistas.
"Com os aliados lançando juntos a guerra aérea em Kosovo, este pode não ser o momento de discutir sobre os europeus fazendo missões por si só. Isto poderia enviar um sinal errado para Belgrado", afirmou um oficial dos EUA.
Alex Ashbourne, uma especialista de defesa no Centro para a Reforma Européia em Londres, disse que Kosovo pode ser salutar se mostrar aos governos europeus que eles precisam ter capacidades militares mais poderosas a fim de desenvolverem uma defesa comum significativa.
Ela destacou que a guerra tem um amplo apoio popular na Europa, mesmo entre movimentos esquerdistas e ambientalistas que eram viceralmente anti-Otan durante a Guerra Fria.
Hopkinson disse que teria sido inimaginável mesmo há um ano que o governo alemão de social-democratas e verdes, com uma forte tradição pacifista, poderia enviar a Luftwaffe numa ação ofensiva pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

mockup