São Paulo, 15 (AE) - A recente aquisição da Time Warner pela AOL mostrou que a "exuberância irracional" apontada por Alan Greenspan, presidente do Federal Reserve (o banco central dos EUA), se revelou capaz de proporcionar um extraordinário poder de compra. O valor de mercado da AOL, duas vezes superior à da Time Warner antes do anúncio do negócio, permitiu à provedora de acesso à Internet abocanhar uma fatia de 55% na nova empresa, ainda que a sua geração de caixa representasse apenas um quarto da registrada pela Time Warner. A nova gigante do setor de telecomunicações, na qual a Time Warner terá participação de 45%, vai reunir na mesma companhia as revistas Time e People, a CNN, Warner Brothers, Sports Illustrated, Cartoon Network, Fortune e outros líderes da mídia nos EUA.
A estratégia foi aproveitar as expectativas positivas dos investidores e utilizá-las como uma moeda valiosa antes que fosse tarde demais. As ações da AOL estavam em um dos seus melhores momentos no mercado, cotadas a US$ 58,6, um crescimento de mais de 1.000% em relação a julho de 97, quando valiam US$ 4 01. Sua cotação máxima foi atingida em 14 de dezembro do ano passado, quando as ações fecharam a US$ 94,5.
Os preços atribuídos às ações da AOL ofuscam os valores dos tradicionais conglomerados do mercado norte-americano. No dia 12, dois dias após o anúncio da megafusão, as ações da AOL valiam 35 vezes o seu patrimônio líquido. Os papéis da Ford e da GM, no mesmo dia, estavam cotados a pouco mais de duas vezes o patrimônio.
Os indicadores de preço/lucro por ação (P/L), que relacionam o valor da empresa em mercado ao seu resultado, também impressionam. A AOL tinha, dia 12, um P/L de 163,89, ante 9,52 da Ford e 7,53 da General Motors. Com base nesse indicador, pode-se supor que os investidores aceitariam esperar 164 anos para recuperar o capital aplicado nas ações da AOL por meio do lucro distribuído pela empresa.
Segundo o diretor da Nix Asset Management Francisco Petros, o objetivo de quem investe em empresas com elevado potencial de crescimento, como é o caso das companhias ligadas à Internet, não é o lucro, mas sim a valorização dos papéis no mercado. Uma prova disso está no fato de que a AOL, assim como a sua congênere Yahoo, não distribui dividendos aos acionistas.
Os preços atribuídos às companhias relacionadas em bolsa são calculados com base nas projeções para a sua geração de caixa futura. A incógnita continua sendo se esses valores estão refletindo, de fato, as expectativas para o desempenho dessas companhias no futuro ou se incluem boa dose da "irracionalidade" dos investidores.
Segundo o professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec) Antonio Zoratto Sanvicente, PhD pela Universidade de Stanford, a teoria do mercado eficiente, segundo a qual todas as informações estão disponíveis ao mesmo tempo para os investidores, pressupõe que os valores em mercado espelham corretamente a expectativa de crescimento da empresa.
Sobre as diferenças entre as cotações em mercado e o patrimônio líquido, Sanvicente explicou que os dois valores não estão relacionados. "O valor de mercado está voltado para o futuro enquanto o valor contábil se reporta ao passado." Francisco Petros visualiza duas tendências para o mercado de Internet nos Estados Unidos. A primeira mostra que essas empresas estão dispostas a aumentar o seu poder de distribuir informação. Além de ampliar a clientela, as companhias de Internet estão preocupadas com o conteúdo a ser oferecido na rede.
A segunda é uma evolução ainda tímida da preocupação dos investidores com os resultados líquidos apresentados por essas companhias. A AOL registrou um lucro de US$ 184 milhões em 99, bastante superior ao lucro de R$ 16,395 milhões da Yahoo e bem mais razoável que o prejuízo de US$ 396,7 milhões registrado pela Amazon.
A união da maior provedora de Internet do mundo com o conglomerado líder em comunicação movimentou US$ 160 bilhões sem nenhuma transferência de dinheiro. Entraram em jogo apenas as valiosas ações da AOL. As receitas das duas empresas vão totalizar US$ 30 bilhões. A AOL Time Warner será a quarta maior empresa dos Estados Unidos em termos de capitalização de mercado de acordo com o fechamento de sexta-feira, dia 7, atrás apenas de Microsoft, General Electric e Cisco Systems.