Fusão entre companhias aéreas aproxima Berlim e Paris Do correspondente Gilles Lapouge
Paris, 15 (AE) - Depois do entusiasmo que acompanhou, no início do ano, a criação (bem sucedida) da moeda única européia (o euro), a Europa ficou adormecida. Seus líderes (Tony Blair, Gerhard Schrder, Lionel Jospin) não mais se amavam. Brigavam por causa da "vaca louca"). Berlim e Paris se observavam mutuamente, medindo-se de alto a baixo. E nada de grandes projetos comuns.
Hoje, o toque de despertar. Um fato novo, parecido com o estrondo de um trovão: Um grupo industrial alemão (DASA ou Daimler Chrysler) e outro francês, a Aérospatiale, se fundem. A nova companhia - EADS (European Aeronautic Defense and Space Company) - se eleva ao terceiro lugar entre os "gigantes" da aviação, depois das companhias norte-americanas Boeing e Lockheed Martin.
A fusão merece ser comentada. Em primeiro lugar, isso vem confirmar que a Europa, além de suas estruturas institucionais (Comissão de Bruxelas, euro, etc.) é também um campo industrial efervescente, que deveria multiplicar os acordos entre as grandes empresas dedicadas ao mesmo ramo.
Estes acordos são essenciais nos setores que exigem concentração de conhecimentos, de técnicas pesadas e de grandes meios financeiors.
Este é o caso das atividades da nova empresa: aeronaves e armamentos.
Os benefícios serão sentidos em dois setores. Primeiramente, na construção aérea. O grupo deterá 75,8% do consórcio europeu Airbus.
Com certeza, o Airbus já é um sucesso, visto que, neste ano, o grupo ultrapassa a própria Boeing. Entretanto, a estrutura do Airbus carecia de flexibilidade, por ser apenas um grupo de interesse econômico. De agora em diante, a expectativa é de que será transformado numa verdadeira companhia integrada, dona de seus investimentos, de sua organização industrial. A fusão permitirá a criação da Societé Airbus, com grandes ambições (inclusive a preparação de uma gama completa de aviões, de 100 a 750 lugares) As indústrias de defesa sentirão os mesmos efeitos dinamizantes. Será que o novo grupo poderá satisfazer aos apetites dos britânicos e sobretudo dos norte-americanos - helicópteros, aviões militares, satélites, tecnologias de defesa? Veremos. A verdade é que este salto era necessário porque as indústrias européias, apesar de suas realizações brilhantes , eram superadas pelas companhias dos Estados Unidos.
Existe ainda outro aspecto. Efetivamente, se a Alemanha incentivou a fusão da DASA com o grupo francês, foi em parte por causa da guerra de Kosovo. Esta guerra mostrou que, no campo da informação, dos mísseis de longo alcance, das armas teleguiadas, o Velho Continente estava atrasado. Os aviões franceses eram excelentes, mas teriam sido cegos sem os "olhos" norte-americanos.
Evocar aqui a Alemanha não é uma lembrança casual. Na realidade, além de seus aspectos financeiros, industriais, tecnológicos, esta fusão encerra uma lição política: a volta do amor no casal franco-alemão.
No tempo do chanceler Helmut Kohl e do primeiro ministro francês, François Mitterrand, a paixão era absoluta. Depois veio Lionel Jospin e a ternura ficou mais seca. Depois chegou Schrder e tudo se transformou em vinagre.
Schrder não amava muito a França. Principalmente, embora socialista, ele não amava muito os socialistas do modelo Jospin, que parecem acreditar no socialismo. Além disso, desde sua chegada, Schrder quis substituir a "liderança" franco-alemã por uma outra liderança tríplice: França, Alemanha e Inglaterra.
O chanceler alemão preferiria Londres a Paris. Preferiria Blair, que se entende perfeitamente com os industriais, em vez de Jospin, que sempre dizia: "O social, o social..." Contudo, mais recentemente, as coisas mudaram e isso por dois motivos.
Primeiramente, Schrder descobriu o que todos já sabiam há muito tempo: Jospin, embora seja sinceramente socialista, não ignora absolutamente o mercado, a mundialização, as privatizações, etc.. E, paralelamente, a tentativa de Schrder e de Blair de inventar uma "terceira via socialista" resultou num retumbante fracasso: sua popularidade ficou catastrófica.
A crise de anglomania de Schrder acalmou-se. E a França reconquista agora seu favor. Para se convencer de que a fusão no ramo da aeronáutica tem também uma dimensão política , bastaria ler a imprensa matutina inglesa que hoje tinha cores pálidas. Um banqueiro falava de "fumaça no nariz", quase uma afronta... E um jornal londrino explicou a "bocca chiusa": "Afinal, a Europa se organiza em torno do caroço duro franco-alemão".





