Fusão Brahma/Antarctica provocará demissão de oito mil, afirma presidente da Kaiser
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domingo, 19 de setembro de 1999
Por Renata Rondino 
São Paulo, 20 (AE) - A fusão entre Brahma e Antarctica, que resultou na criação da Ambev, trará como consequências o aumento dos preços da cerveja e a demissão de aproximadamente oito mil funcionários do sistema de produção e distribuição da nova empresa. A avaliação foi feita hoje pelo presidente da Kaiser, Humberto Pandolpho Júnior, em audiência pública promovida pelo Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em São Paulo. De acordo com Pandolpho, esse número representa cerca de 15% do total de funcionários das duas empresas e é quatro vezes o número de funcionários da própria Kaiser.
A audiência, no entanto, não teve a presença de nenhum representante da Ambev nem de fornecedores de Brahma e Antarctica. Segundo Pandolpho, se aprovada a fusão, a Ambev passará a deter 75% do mercado e, de acordo com uma pesquisa feita pela empresa de consultoria Nielsen, nas principais capitais do País onde as marcas Brahma, Antarctica e Skol lideram o mercado praticam preços maiores.
Concentração - Além disso, afirmou o executivo, será imposto o padrão Brahma de produtividade, o que indicaria que as fábricas mais ociosas serão fechadas ou vendidas, com a perda de postos de trabalho. Para Pandolpho, tudo indica que Brahma e Antarctica, com 47 fábricas em todo o País, vão concentrar suas atividades em unidades com incentivos de ICMS. Isso significa que alguns Estados poderão perder arrecadação de impostos, como seriam os casos da Bahia, Paraíba, Rio de Janeiro, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. A União também perderia receita tributária, afirmou o presidente da Kaiser, em razão da utilização de créditos compensáveis oriundos da Antarctica.
"O principal de tudo é que o consumidor não vai ganhar nada com a criação deste monopólio moderno. Em um mercado monopolizado, ele e a concorrência saudável só têm a perde." Perda - A Kaiser irá perder mercado no médio prazo, se for aprovada a fusão entre Brahma e Antarctica, disse o presidente da Kaiser. De acordo com Pandolpho, a empresa detém, hoje, 15% do mercado nacional. Para ele, basta que Brahma e Antarctica ajustem algumas questões operacionais para começar a tirar mercado da concorrência. "Nossas vantagens competitivas são modestas frente à concentração de mercado que está por vir"
afirmou o executivo.
Ele explicou que a Kaiser tem a liderança de mercado apenas no Estado do Paraná, onde detém 27% de participação. "A menor participação prevista pela Ambev é justamente neste Estado
onde ela pretende ficar com uma fatia de 55%. Isso seria um dano seriíssimo." Para Pandolpho, a aprovação dessa fusão traria uma descaracterização do mercado. "O que o brasileiro ganhou com isso? A Ambev vai demitir funcionários no Brasil; vai comprar fábricas lá fora; e não vai trazer nenhuma das marcas para o País, ou seja, vai gerar empregos em outros países e não vai beneficiar ninguém por aqui.
Pandolpho voltou a desmentir a informação de que a Kaiser estaria sendo vendida para a Heineken, marca que hoje detém 14% de participação na empresa. "Teria sentido fazer uma fusão por causa de 15% de participação de mercado? Se fosse para conseguir alocação de recursos, isso pode ser feito de outras maneiras mais simples." Em relação à ausência de representantes da Ambev durante a audiência, Pandolpho caracterizou essa atitude como "arrogante".
Trabalho - A Confederação Nacional dos Trabalhadores da Indústria de Alimentação disse que aproximadamente mil funcionários já teriam sido demitidos, desde julho, quando foi anunciada a fusão entre Brahma e Antarctica. O advogado da confederação, Valente Neto, disse que essas demissões não estão relacionadas a processos de "turn over", onde os empregados são substituídos por outros. Segundo o advogado, os funcionários demitidos não foram repostos, o que indica que a Ambev está desobedecendo a medida cautelar determinada pelo Cade, em julho deste ano, que proibia o fechamento de fábricas e demissões em função da fusão. "Vamos apresentar cópias das rescisões de contratos para os membros do Cade", afirmou Valente Neto.
O presidente do Cade, Gésner de Oliveira disse que, até agora, não houve descumprimento da medida cautelar, mas que essas novas informações serão avaliadas e, se forem comprovadas, a Ambev poderá ser multada em 100 mil UFIRs/dia. Ele disse também que não é possível, ainda, determinar uma data precisa para que o Cade decida sobre a fusão, mas há um desejo de que isso ocorra até o final do ano. "Temos um compromisso de julgamento rápido", afirmou.
Participaram da audiência pública o secretário de Direito Econômico, Paulo de Tarso; a diretora executiva do Procon, Marinês Fornazari; a relatora do processo de criação da Ambev, Hebe Romano; e os conselheiros do Cade, Mércio Felski e Marcelo Caliari, além do próprio Gésner de Oliveira e do diretor do Departamento de Proteção Econômica do Cade, Caio Márcio.


