Furtado condena incentivo e diz que montadoras geram desemprego
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domingo, 11 de julho de 1999
Por Gilse Guedes 
Rio, 12 (AE) - O economista Celso Furtado, criador da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), disse hoje que é um equívoco o governo federal conceder incentivos fiscais à Ford quando a indústria automobilística "só tem gerado desemprego" no País. "É estranho que sejam concedidos incentivos fiscais a indústrias que agravam o desemprego", disse o economista. "Será que a Ford precisa de um favorecimento financeiro de R$ 700 milhões do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social)?", questionou. Segundo ele, o debate sobre a instalação da fábrica da Ford na Bahia indica a fragilidade do crescimento econômico no Brasil. "Uma política industrial tem de ser nacional e não atrelada a interesse de apenas um estado", declarou o economista.
"Eu pergunto: o Brasil precisa de mais uma fábrica de automóveis? Será que ela é prioritária?". Ele sugeriu a realização de um estudo sobre o assunto. Furtado acredita que, atualmente, há capacidade ociosa da indústria no Brasil. Segundo ele, o país é o que tem mais fábricas de automóveis do mundo. Celso Furtado avalia que o governo está indo na contramão da tendência internacional, que é de concentração do parque industrial e não de dispersão. "A Itália tem, hoje, uma unidade
e a França tem duas", exemplificou.
Para ele, é "falso" o argumento de que a instalação da Ford na Bahia vai gerar emprego. "É notório no Brasil que a indústria de automóveis é a que menos gera emprego; o que ela cria é desemprego", afirmou, citando como exemplo os problemas enfrentados pelo governo de São Paulo com as demissões de operários no ABC paulista. Ele vê, inclusive, um sério risco de que a multinacional norte-americana, caso seja realmente construída na Bahia, leve à redução das atividades de outras unidades no resto do País. "Acredito que isso será um problema real."
Idealizador da Sudene, órgão criado no governo Juscelino Kubitscheck para o desenvolvimento de um plano de política econômica para o Nordeste, Furtado defendeu uma visão de conjunto do crescimento industrial no Brasil, algo que, segundo ele, foi deixado de lado. A Sudene, aprovada em maio de 1959 pela Câmara, foi instituída para funcionar como uma agência de desenvolvimento regional, de forma a planejar e coordenar os programas sócio-econômicos de interesse do Nordeste, funcionando como órgão centralizador dos investimentos federais na região.
O economista, que é paraibano, considera que os fundamentos para o "desenvolvimento regional" não podem ficar limitados à instalação de uma fábrica em um Estado. "Uma política industrial tem de visar prioritariamente o interesse nacional". Furtado avalia que a defesa para a instalação da montadora na Bahia está pouco fundamentada, tendo em vista que está se procurando favorecer uma "política local".
"O Brasil vai perder recursos para dar ajuda a uma indústria que não gera emprego", disse ele, acrescentando que a prioridade é o desenvolvimento de outros setores no País. "O Brasil tem, atualmente, carência na área de infra-estrutura". "Então precisamos investir nessa área e não em um setor ocioso, que, nos últimos dez anos, gerou desemprego."


