Funileiro denuncia PMs e quer garantia
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quinta-feira, 22 de outubro de 1998
Clarissa Thomé Especial para a AE 
O funileiro Sidney Vieira Lima, de 38 anos, que perdeu a mulher, Maria Cristina Gomes Rangel, de 40 anos, grávida de nove meses, e o filho Felipe, de 4, supostamente metralhados por policiais militares no dia 16, disse ontem, no Rio de Janeiro, que vai pedir garantias de vida à polícia.
Eles estavam a caminho da maternidade. Lima está assustado desde que seu irmão, Sérgio Vieira Lima, foi ameaçado por PMs armados com fuzis. O funileiro reafirmou ontem, em depoimento na 40ª Delegacia do Rio, que os tiros foram disparados pelos policiais.
Sérgio teria sido procurado pelos militares num bar em Fazenda Botafogo, subúrbio do Rio. Ele se acovardou - não vai dar queixa nem quer mais me ajudar, disse o funileiro, que pretende deixar o Rio de Janeiro. Quero ir para a roça, cuidar da filha que Deus me deixou, afirmou ele, referindo-se a Érica, de 6 anos, que estava no carro mas nada sofreu.
Lima depôs ontem novamente ao delegado José Otílio Bezerra, na 40ª Delegacia Policial. O primeiro depoimento foi dado quando o funileiro ainda estava no hospital. Lima confirmou que seu carro foi alvejado por policiais militares. Sou trabalhador, eles fizeram isso com a pessoa errada, afirmou.
O funileiro contou que Maria Cristina estava em trabalho de parto e que o casal não tinha com quem deixar as crianças. Quando passavam pela Rua Arnaldo Guinle, em Fazenda Botafogo, o Passat de Sidney foi seguido por um carro da PM e atingido por 11 tiros de fuzil. Eu gritei: se abaixa todo mundo que os tiros são com a gente, relatou ele Cristina e as crianças gritavam muito.
Lima perdeu a direção do carro quando foi atingido e bateu em um poste. Ele desmentiu a versão do sargento Joel Evaristo da Silva e do cabo Edilson Pires de Vasconcelos, principais suspeitos do crime, de que havia outro carro na rua, de onde teriam partido os tiros. Isso é uma grande mentira, afirmou.
Depois da colisão, os policiais teriam estacionado ao lado do carro. Lima contou ter ouvido a conversa entre os PMs, de que ele poderia estar armado. Acordei com o movimento dos bombeiros e vi que todos haviam sido retirados do Passat, menos o Felipe, jogado no cantinho - nessa hora eu soube que ele estava morto, contou Lima, chorando muito.
O funileiro só teve a confirmação da morte da mulher e do bebê que ela teria na tarde de anteontem, quando teve alta do Hospital Getúlio Vargas. Lima foi ferido na região lombar, no ombro e no pescoço - uma bala passou por seu ombro, entrou pelo pescoço e se alojou no esôfago. Ele tem um projétil no maxilar e outro nas costas.
Uma das testemunhas que confirmava a versão de Lima modificou seu depoimento na 40ª DP. O vigia Jorgino da Costa disse inicialmente que os tiros foram disparados pelos militares, mas agora afirma que não viu nada.
O advogado de Lima, o ex-governador do Estado, Nilo Batista, suspeita que tenha ocorrido coação da testemunha. Na próxima semana o delegado José Otílio Bezerra vai fazer a reconstituição do caso com a presença de Lima e dos dois PMs. Não queria voltar lá, mas quero justiça para esses policiais - o que eles fizeram foi ruindade pura, disse o funileiro.


