Funerárias fechavam contratos dentro do Hospital Salgado Filho
PUBLICAÇÃO
sábado, 22 de maio de 1999
Agência o Globo 
Dezesseis dias após a polícia revelar a ação de um assassino em série dentro do Hospital Municipal Salgado Filho, a agência o Globo teve acesso com exclusividade à lista oficial das 116 pessoas que morreram na Unidade de Pacientes Traumáticos (UPT) durante os plantões do auxiliar de enfermagem Edson Izidoro Guimarães.
Repórteres do Globo procuraram as famílias das supostas vítimas do assassino. Depois de percorrer 65 endereços, as equipes de reportagem reconstituíram a história de 30 pacientes mortos entre 10 de janeiro, quando Edson começou a trabalhar no setor, e o dia 7 de maio, quando ele foi preso.
Foram investigados os nomes das funerárias que fizeram os enterros das 116 vítimas. Foram encontrados os registros de 65 sepultamentos. Deste total, constatou-se que 30% tinham sido realizados pelas funerárias Frei Rogério e Nova Vida, que têm um sócio comum: Geraldo Magela Monge.
Segundo parentes de supostas vítimas de Edson, as empresas são, muitas vezes, identificadas como as funerárias do hospital. Os contatos eram feitos em uma sala no subsolo do Salgado Filho (ao lado do necrotério), fechada pela direção do hospital há cerca de dois meses.
Segundo parentes das supostas vítimas, enfermeiros, policiais, assistentes sociais e até médicos faziam os contatos com as funerárias em troca de uma comissão de 30% por cada funeral. A ousadia dos intermediários de funerárias era tanta que pelo menos uma pessoa diz ter sido contatada na sala da assistente social.
A própria assistente social chamou um agente funerário que foi me buscar na sala dela. Fui com ele até o necrotério. Ao final, recebi uma folha impressa em computador que não sei se posso chamar de nota fiscal, conta Darlea Fidelis Santana, de 26 anos, filha de Léa dos Santos Fidelis, morta em 13 de abril.
O contato foi feito logo depois que Darlea recebeu a notícia da morte de sua mãe, em consequência de tuberculose renal. A funerária do hospital neste caso foi a Frei Rogério, que lhe cobrou R$ 410,00 pelo sepultamento.
Apesar de terem escritórios distantes do hospital, que fica no Méier, a Frei Rogério - com sede em Marechal Hermes - e a Nova Vida - no Centro - conseguiram suplantar concorrentes localizadas nas proximidades do Salgado Filho. Juntas, elas fizeram 19 de 65 sepultamentos.
A Funerária Santa Cássia, com sede em Inhaúma e bem mais próxima do hospital, fez dez sepultamentos. O nosso caso é muito fácil de explicar porque estamos perto do hospital, no caminho de casa de muitos dos pacientes, justifica o funcionário da Santa Cássia, Paulo Roberto dos Santos.
A maioria das famílias contou ter sido abordada dentro do hospital. Nem todos aceitaram a proposta dos agentes funerários, que propuseram facilidades. O próprio Edson Izidoro afirmou, em depoimento, ter avisado funerárias sobre a morte de pacientes para obter comissões.
Willliam Charles Alves, de 46 anos, foi abordado por Edson. Ele insistiu muito, disse que o agente funerário era amigo dele e facilitaria o pagamento. A tal ponto que precisei ser ríspido.


