Davos, Suíça, 31 (AE) - Os fundos de pensão, com US$ 17 trilhões em circulação no mundo, podem ser a nova arma da política sindical. O assunto está sendo estudado pela Confederação Internacional dos Sindicatos (CIS), informou ontem o secretário-geral da organização, William Jordan. A idéia, disse, é influenciar as decisões de investimento dos fundos, por meio da representação dos trabalhadores nos conselhos. Se forem capazes de intervir nas decisões de investimento, os trabalhadores poderão discriminar as empresas violadoras de normas trabalhistas, em todo o mundo, ou defender os interesses dos asslariados nas fusões e incorporações, com frequência seguidas de demissões. "As megafusões apenas começaram", comentou.
Jordan, um dos porta-vozes dos trabalhadores nas negociações comerciais de Seattle, defende a inclusão dos temas trabalhistas na pauta da Organização Mundial do Comércio. "Não nos regozijamos com o colapso das negociações", disse. "Queremos uma OMC forte e um comércio internacional crescente." Mas é preciso vincular as questões sociais ao comércio porque a Organização Internacional do Trabalho carece de poder para impor o cumprimento das normas.
"Somos contra sanções bilaterais", explicou o sindicalista. Para ele, a OMC deveria funcionar como recurso final para a imposição das normas trabalhistas básicas, quando falharem as censuras e recomendações da OIT (como ocorre frequentemente, argumentou). O assunto seria discutido em painéis, como os demais conflitos comerciais, e a solução, em muitos casos, poderia ser obtida mesmo sem sanção. "Em alguns casos de violações", afirmou, "bastaria a OMC dizer: pare com isso." Jordan reconhece o risco de ações arbitrárias e de medidas protecionistas, se o sistema funcionar de forma bilateral. Mas o risco de protecionismo, argumentou, será ainda maior, se as questões trabalhistas forem postas de lado nas negociações comerciais. A importância da questão, ressaltou, foi evidenciada em Davos, nos últimos dias, quando cuidaram do tema "dois dos mais conhecidos líderes políticos" (o presidente dos EUA, Bill Clinton, e o premier britânico, Tony Blair).
Em Seattle, afirmou Jordan, os dirigentes sindicais estavam apenas propondo uma investigação das relações entre a expansão do comércio e a evolução das condições de trabalho. Não se trata, segundo a vice-presidente da Confederação Sindical da Alemanha, Ursula Engelen-Kefer, de criar padrões universais de salário mínimo ou de uniformizar as práticas de trabalho, mas de garantir a aplicação, em todo o mundo, de padrões básicos, como o combate ao trabalho infantil, a eliminação do trabalho forçado e a defesa da liberdade de organização dos trabalhadores.
Uma razão especial para vincular as questões trabalhistas ao comércio, segundo Jordan, é que a expansão comercial tem sido acompanhada de crescentes abusos. Alguns dos mais graves têm ocorrido em zonas de exportação. No Oriente, acrescentou, há zonas cercadas de arame farpado, como campos de prisioneiros. Além disso, o número de crianças no trabalho duplicou em dez anos para 500 milhões. Essa evolução acompanhou a integração dos mercados. O trabalho infantil, disse Jordan, é problema importante também no Brasil e tem sido um tema frequente dos dirigentes sindicais brasileiros.
Os sindicalistas participantes do Fórum Econômico Mundial, em Davos, cobraram das grandes empresas, para o próximo ano, uma auditoria interna, para verificar se os padrões básicos da OIT são seguidos em suas operações nos diversos países.

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