Fundef foi fraudado em 359 municípos
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quinta-feira, 08 de fevereiro de 2001
Agência Estado De Brasília 
Até cuecas foram compradas com o dinheiro que deveria ser aplicado em educação básica, originário do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Valorização do Magistério (Fundef), caso registrado em Barreira, no Ceará. Em Araçás, na Bahia, enquanto as crianças eram transportadas em carrocerias de caminhões, o que é proibido por lei, a prefeitura da cidade torrou R$ 31 mil na compra de um carro de luxo - um Vectra - com a desculpa de que seria para executar o serviço.
Essas irregularidades e outras mais escabrosas com dinheiro do Fundef foram detectadas pela subcomissão especial da Comissão de Educação da Câmara criada para investigar desvios do fundo. A subcomissão constatou que, nos últimos dois anos, houve fraude no Fundef em 19 Estados, envolvendo 359 municípios. De acordo com o relatório da subcomissão, as piores irregularidades com os recursos do Fundef foram registradas na Bahia, no Piauí e no Maranhão.
Hoje, tenho a convicção de que o Fundef está se transformando em poderoso instrumento de corrupção no País, afirma o relator da subcomissão, deputado Gilmar Machado (PT-MG), responsável para apuração dos desvios. Baseado na apuração dos casos de corrupção, Machado vai propor, no início do ano legislativo, a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para aprofundar as investigações.
O deputado pedirá ao Ministério Público Federal e aos tribunais de Justiça a abertura de processo criminal contra os prefeitos que utilizaram indevidamente as verbas do Fundef. É inadmissível que ladrões de dinheiro público fiquem soltos, diz Machado. Segundo ele, em alguns Estados foram encaminhadas à Justiça denúncias de corrupção no Fundef, mas, estranhamente, nada foi feito até agora para punir os culpados.
Segundo Machado, além dos desvios, a maioria dos municípios não está cumprindo corretamente a lei do Fundef, que prevê a aplicação de, no nímino, 60% dos recursos do fundo na remuneração de professores. O deputado avalia que esse fato vem ocorrendo por falta de fiscalização dos tribunais de contas dos Estados e do próprio Ministério da Educação (MEC).
O relatório de Machado, que deverá ser votado nos próximos dias na Câmara, mostrará ainda que o dinheiro do Fundef foi utilizado para comprar perfumes, pagar obras superfaturadas e fictícias, coleta de lixo, banquetes em restaurantes e até contas de celulares. As verbas do Fundef também foram usadas em diversas modalidades de compras superfaturadas. A subcomissão descobriu ainda um festival de notas frias para justificar compras e obras inexistentes. O ministério deveria ser mais rigoroso no acompanhamento da aplicação das verbas, diz o deputado.
Na cidade de Cafarnaum (BA), com apenas 3.100 alunos, a prefeitura comprou 70 mil cadernos, o equivalente a 22,5 unidades por estudante. Já em Canidé (CE), a compra de fogões industriais teve superfaturamento superior a 200%. Em Fortaleza, a prefeitura gastou R$ 1,6 milhão - ou seja, 4,6% do Fundef de 1998 - para custear a coleta de lixo da cidade.


