Fundadores celebram 20 anos da Pastoral da Criança
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sábado, 01 de novembro de 2003
Vanessa Navarro<br> Reportagem Local 
Florestópolis - Entre as milhares de pessoas que participavam, ontem pela manhã, da Missa em Ação de Graças pelos 20 anos da Pastoral da Criança, em Florestópolis (73 km ao norte de Londrina), duas tinham um motivo especial para comemorar. Nozeli Marcelino dos Santos, 37 anos, celebrava um ''milagre'', em sua própria definição, ocorrido há 18 anos: a sobrevivência da filha, Laize dos Santos Silva, então recém-nascida e correndo risco de morte por subnutrição. ''Eu nem era muito pobre, mas era mãe de primeira viagem, não tinha orientação. Minha filha não estaria aqui hoje se não fosse esse trabalho'', testemunhou.
Laize foi uma das primeiras crianças beneficiadas pelas ações da Pastoral da Criança, iniciadas em 1983, em Florestopólis, pela pediatra e médica sanitarista Zilda Arns e o atual presidente da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), o cardeal primaz dom Geraldo Majella Agnelo. Os dois estiveram em Florestópolis, ontem, para a comemoração. Usando iniciativas simples, a Pastoral nasceu com o objetivo de salvar a vida de crianças que morriam principalmente de fome e doenças decorrentes da desnutrição.
Hoje o programa atende quase 1,6 milhões de crianças em mais de 3,5 mil municípios brasileiros e foi copiado em 14 países. O sucesso da idéia rendeu a Zilda Arns uma indicação ao Prêmio Nobel da Paz, em 2001. ''É um exemplo que o Brasil está dando ao mundo, o de que devem ser valorizadas as ações simples e baratas'', afirmou a coordenadora nacional da Pastoral da Criança. Ações como o incentivo ao aleitamento materno, a vigilância nutricional, a vacinação, ao auxílio às gestantes e uso do soro caseiro.
Trabalhando com essas ações, o programa conseguiu, segundo dados da própria Pastoral, reduzir o índice de mortalidade nas comunidades atendidas para 14 óbitos a cada mil nascidos vivos metade da média nacional. ''Onde a Pastoral vai, ela dá certo. Nossa meta é atingir todas as crianças pobres do país, mas ainda há muito a fazer'', assinalou Zilda. O programa cresceu e hoje inclui ações complementares como atividades de geração de renda para as famílias.
Por trás das ações estão 218 mil voluntários não remunerados que atuam nos 27 estados do País. No Paraná, são 18 mil líderes comunitários servindo ao programa. Para Romeu Edson Paulino, um dos fundadores da Pastoral em Florestópolis, mais do que representar economia, o voluntariado é uma das chaves do sucesso do programa. ''São pessoas que querem servir, sem interesses, sem barganha política'', argumentou. Paulino critica os programas sociais do governo federal. ''São cheios de cartões, complicam tudo. Ninguém come cartão. Salvar vidas é a coisa mais simples do mundo'', observou.
Dom Geraldo Majella evitou comparar os dois programas. Disse apenas torcer para que o Fome Zero dê certo. ''Que não seja assistencialista, mas que leve as famílias a terem um trabalho e uma justa remuneração para se sustentarem'', indicou. O cardeal coloca a família no centro das ações da Pastoral. ''O sujeito da promoção humana são as mães, as próprias famílias, sob a mística do amor e da fraternidade'', concluiu.


