Porto Alegre, 2 (AE) - O diretor da Fundação Centro de Experimentação e Pesquisa (Fundacep), José Ruedell, confirmou hoje a existência de lavouras de soja transgênica contrabandeada da Argentina no Rio Grande do Sul. "Não é possível afirmar a área plantada com plena certeza, mas é certo que existe um volume significativo", comentou.
Ruedell, que dirige uma instituição privada de pesquisa ligada a 42 cooperativas agropecuárias gaúchas, admite que as declarações do presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Sementes (Abrasem), Ywao Miyamoto, podem estar corretas. "Pelas fontes extra-oficiais, é mais ou menos por aí", disse. Ontem (1), Miyamoto previu que na safra 99/2000 haverá 1 milhão de hectares plantados com soja transgênica clandestina no estado.
O número, obtido a partir das estimativas de que na safra passada 300 mil dos 3 milhões de hectares cultivados com soja receberam sementes transgênicas, é viável, acredita Ruedell. "Se o produtor guardou 10% da produção (equivalentes a três a quatro sacos) hoje haveria sementes para 1 milhão de hectares", calcula.
Na opinião do diretor da Fundacep, além de ilegal, a soja transgênica contrabandeada da Argentina é perigosa porque é desconhecida dos produtores gaúchos, não tem controle e não é adaptada às condições de solo e clima locais. "Ela pode estar trazendo doenças para o estado", afirma.
De acordo com Ruedell, os agricultores estão procurando os transgênicos com "ansiedade" para reduzir o grande custo com o controle de plantas invasoras nas plantações. Os herbicidas chegam a responder por 20% a 25% dos custos variáveis nas lavouras de soja e, mesmo assim, sem evitar que ocorra alguma perda de produção, explica o especialista.
Conforme levantamento da Federação das Cooperativas Agropecuárias do Estado (Fecoagro), divulgado durante a Expointer 99, em Esteio (RS), cada hectare de soja vai exigir US$ 31,00 em herbicidas na próxima safra. "O glifosate (utilizado no controle do inço entre a soja transgênica) é muito mais eficiente, barato e reduz o gasto para 5% dos custos variáveis", comenta Ruedell.
Rotação - O diretor da Fundacep, entretanto, alerta que o produto não controla todas as plantas daninhas. Por causa disto, acrescenta, restarão outras invasoras que vão impor a aplicação de outro herbicida, diminuindo a vantagem do uso dos transgênicos em relação aos custos. Para Ruedell, a rotação de culturas com plantio direto é um método mais vantajoso do ponto de vista econômico e ecológico para os agricultores.
Na opinião dele, as discussões sobre o plantio de produtos geneticamente modificados não está levando em conta este "problema anterior", que é o precário domínio de tecnologias de plantio. "Os produtores estão buscando formas químicas de reduzir seus custos", comenta.
Segundo ele, a rotação de culturas com plantio direto mantém uma camada de palha sobre a superfície do solo que "abafa" o inço, não permitindo que ele se desenvolva e, portanto, reduzindo a necessidade de herbicida. "A questão é sensibilizar os agricultores a fazer esta transposição de tecnologia, mostrando que é possível aumentar sua renda com métodos mais racionais de cultivo", afirma.

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