Funcionários, Estado, MP e menores trocam de acusações
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domingo, 25 de julho de 1999
Por Uilson Paiva 
São Paulo, 26 (AE) - O menor culpa o monitor, que acusa a Justiça, que responsabiliza o Estado, que põe a culpa nos menores. As justificativas para as sucessivas rebeliões na Febem mostram que a situação nas unidades que deveriam reeducar os internos para a vida em sociedade está fora de controle. São verdadeiros "barris de pólvora", prestes a explodir. "Nada garante que uma nova rebelião não vá surgir a qualquer momento"
afirmou hoje o padre Júlio Lancelotti, da Pastoral do Menor, horas antes de um novo tumulto. Em visita ao complexo do Tatuapé
pela manhã, ele diz ter colhido exemplos do conflito a que estão submetidos os funcionários da Febem: escolher entre um sistema democrático e educativo ou repressivo e autoritário.
"Uma educadora, ao me ver passando pela calçada, saiu correndo atrás de mim para gritar que eu estava indo até lá para ajudar aqueles bandidos", contou. "Depois, um psicólogo veio me dizer que, a partir de agora, após as últimas rebeliões, ele iria mudar o tratamento com os meninos". Para o padre Júlio, o raciocínio de que a repressão com autoritarismo é mais eficiente só é demonstrado a curto prazo. "A longo prazo, cria adultos mais violentos ainda". Para o diretor do sindicato dos funcionários da Febem, Adalberto Carlos da Silva, a violência entre os meninos é que cresceu. "Há gangues nos pavilhões e os funcionários não conseguem controlá-las".
Silva observa que essa não é a única razão para as revoltas sucessivas e passa a enumerar as outras: superlotação, processos parados, desleixo do governo - que não transfere meninos do interior para o interior - e falta de funcionários. "Desde dezembro, estamos alertando o governo sobre tudo isso". O promotor de Justiça da Infância e da Juventude Ebenézer Salgado Soares tem outra opinião. "Quando há rebeliões em presídios e na Febem, os internos têm sempre razão", observa. Ele refere-se ao fato de, invariavelmente, eles terem desrespeitados os seus direitos fundamentais.
Para o presidente da Febem, Eduardo Domingues da Silva, a solução passaria pela "descentralização". Ele acredita que o menor deva ser levado para um local próximo de onde mora a família, o que reduziria a angústia e a vontade de fuga. Admite, porém, que os problemas esbarram na falta de investimento em novas casas e no fato de cidades do interior negarem-se a receber os menores. "Não sei o que fazer, as dificuldades são maiores do que eu imaginava ter", desabafou Silva, hoje à noite
quando se iniciava mais uma confusão. "A culpa é de todos".


