São Paulo, 23 (AE) - Os 1,5 mil funcionários da Ford do Ipiranga, na zona sul de São Paulo, que será desativada em 2000, decidiram hoje, em assembléia, permanecer em greve, por tempo indeterminado.
Eles estão sendo liderados pela Força Sindical, agora com o apoio dos Sindicatos dos Metalúrgicos do ABC (SP) e de Taubaté, no Vale do Paraíba (SP), os dois filiados à Central Única dos Trabalhadores (CUT). A união dos três sindicatos das regiões onde a Ford tem fábricas foi anunciada hoje, após reunião entre sindicalistas de São Paulo, São Bernardo do Campo (SP) e Taubaté. Eles vão formular um documento conjunto para ser entregue ao presidente Fernando Henrique Cardoso, no qual exigirão que o governo vincule empréstimos do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e isenções fiscais para empresas - principalmente a Ford - à proibição de fechamento de fábricas no Brasil e de demissões, pelo tempo de duração dos incentivos.
Terça-feira (27), os sindicalistas vão ao Palácio dos Bandeirantes buscar o apoio do governador Mário Covas (PSDB) ao documento.
A Ford, para instalar a nova fábrica na Bahia, receberá R$ 700 milhões de financiamento do BNDES e mais R$ 180 milhões por ano em incentivos fiscais até 2010. A medida provisória (MP) autorizando a ajuda para a montadora será editada na quinta-feira (29), segundo revelou hoje o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga. O anúncio do fechamento da fábrica de caminhões da Ford em São Paulo foi resultado direto dessa transação, segundo o secretário-geral do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo, Eleno José Bezerra. "Os trabalhadores vão lutar unidos contra essa guerra fiscal que está financiando o desemprego", afirmou. Ele estima que a desativação da fábrica paulistana provocará o fechamento de 1,5 mil empregos diretos e outros 6 mil indiretos no Estado.
O vice-presdidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, Carlos Alberto Grana, afirmou que a Ford espalhou informações desencontradas sobre os planos no Brasil. Por exemplo, revelou para Covas que a fábrica de caminhões, a ser desativada, seria transferida para o ABC. Corre ainda a versão de que a unidade do ABC deixará de produzir automóveis. Com isso, a intenção poderia ser a de dividir o movimento sindical, uma vez que cada sindicato lutaria pelos empregos da região. "Se a intenção era a de provocar disputa entre os trabalhadores, estamos aqui para provar que ela não conseguiu", disse. Segundo ele, todas as manifestações daqui para frente serão feitas de comum acordo entre as centrais sindicais, até hoje consideradas rivais. Grana promete ainda procurar sindicalistas da Bahia (que são a favor dos incentivos fiscais, uma vez que terão uma fábrica) para uma discussão sobre a qualidade dos empregos da futura unidade. A idéia é impedir a redução de salários e benefícios, na comparação com o que são pagos por São Paulo.
Segunda-feira (26), haverá assembléia na Ford do Ipiranga, com a presença de sindicalistas da CUT. Terça-feira, os da Força Sindical participarão de assembléias no ABC e em Taubaté. Amanhã (24), o deputado federal e ex-presidente da Força Sindical, Luiz Antonio de Medeiros (PFL-SP), espera ter um encontro com o presidente Fernand Henrique Cardoso, em Brasília, para tratar do mesmo assunto. A audiência ainda não está confirmada. A Ford não se pronunciou hoje sobre o assunto. Informou apenas que, com os dois dias de greve, deixou de produzir 280 caminhões e picapes no Ipiranga. A montadora tem cerca de 7,5 mil funcionários no País, dos quais 1,7 mil estão hoje afastados, com redução de salários, por conta de queda nas vendas e na produção. A empresa também mantém aberto programa de demissões voluntárias para enxugar quadro nas fábricas no Estado de São Paulo. Esse cenário de crise, que dura um ano, faz com que sindicalistas desconfiem que a intenção de montar a fábrica na Bahia tenha como propósito apenas redução de custos e não aumento de produção ou de emprego. Por isso, os incentivos fiscais e o financiamento do BNDES não se justificariam.

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