O pecuarista Marcus Vinícius Gaspar Guimarães, 37, foi desarmado ontem por agentes da Polícia Federal dentro da fazenda Paraíso, ocupada anteontem pelos índios pataxó Hã-Hã-Hãe. Guimarães é proprietário da fazenda segundo certidão de cartório contestada pelos líderes indígenas. Os pataxó decidiram invadir a área depois do enterro do índio Galdino Jesus dos Santos, um dos líderes da tribo, assassinado com fogo por cinco rapazes em Brasília. Ontem pela manhã, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Júlio Gaiger, deixou a aldeia. ‘‘Os índios não só podem como devem permanecer ocupando a fazenda.’’
A fazenda Paraíso integra uma área de 788 hectares cuja posse foi concedida aos índios em dezembro passado. Escoltado pela Polícia Federal, Guimarães chegou à fazenda às 9h30, dirigindo seu próprio carro, uma perua Santana Quantum. Depois que ele já estava havia 15 minutos no interior da casa, um policial federal percebeu que o fazendeiro estava armado com uma pistola Taurus 765. O fazendeiro entregou a pistola e o documento de porte de arma ao agente e disse que estava armado para garantir sua segurança e de seus parentes.
‘‘Não penso em partir para um confronto, mas não posso descartar a possibilidade de legítima defesa.’’ Os agentes disseram ao fazendeiro que sua arma e porte só seriam devolvidos depois que ele deixasse o local. O porte vence em junho do ano que vem e tem validade restrita aos estados do Nordeste. Por volta das 11h30, Guimarães deixou a fazenda. Os móveis da sede e objetos pessoais do fazendeiro foram transportados em uma camionete.
A empregada doméstica Saturnina da Silva, 13, que estava no local quando os índios chegaram, anteontem, disse que não sofreu ameaças. ‘‘Fiquei com medo no momento da invasão, mas fui muito bem tratada.’’ Quando empacotava os objetos, a mulher do fazendeiro, Cleide Marta Silva, 27, disse que uma corrente e uma pulseira de ouro e um telefone celular teriam sido furtados pelos índios.
O líder indígena Wilson de Jesus Souza, 32, negou o furto. ‘‘Nós não entramos na casa. Quem dormiu lá foram o presidente da Funai e a Polícia Federal.’’ Segundo Souza, os índios vão entrar na casa só depois que os pataxó receberem autorização judicial.
Os índios se revezaram para dormir na fazenda no primeiro dia de ocupação das terras. Mesmo com 22 policiais federais garantindo a ocupação, apenas 15 índios eram autorizados a dormir três horas de cada vez. Os outros 85 ficaram acordados em volta de uma fogueira.
Os fazendeiros que reivindicam a propriedades das quatro outras fazendas ocupadas pelos índios também retiraram seus pertences ontem. ‘‘É duro a gente pagar em dia todos os impostos e depois perder tudo para pessoas que não querem nada da terra’’, disse Antonio Aguiar, administrador da fazenda São Sebastião.
Os pataxó reivindicam na Justiça há 15 anos um território de 36 mil hectares dado a eles pelo governo federal em 1926 - dentro da qual estão a área na qual vivem hoje, de 1.079 hectares, e a área invadida, de 788 hectares.
A única certeza que o agricultor e pecuarista Marcus Vinícius Gaspar Guimarães tem é que vai receber indenização pelas benfeitorias realizadas na fazenda Paraíso. ‘‘Em casos como esse, o governo federal paga apenas as indenizações feitas e benfeitorias’’, disse o presidente da Funai, Júlio Gaiger.
O fazendeiro disse que não aceita o argumento usado pelo Tribunal Regional Federal para razão ao pedido de posse dos índios. Para o tribunal, não pode existir posse de não-índio em terras indígenas. ‘‘Por este raciocínio, o governo federal deveria desapropriar a baía de Guanabara e o Palácio do Planalto, que também já foram habitados por índios.’’ Guimarães disse que vai recorrer da decisão da justiça para tentar recuperar sua fazenda.

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