Fumo deve matar 32 mil pessoas no Brasil este ano
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domingo, 01 de agosto de 1999
Por Murilo Fiuza de Melo 
Rio, 02 (AE) - O cigarro deverá matar cerca de 32 mil brasileiros até o fim do ano. Segundo levantamento de incidência e mortalidade do Instituto Nacional do Câncer (Inca), 30% dos 104.200 pessoas que deverão morrer de câncer no País até dezembro são fumantes. "O fumo no Brasil não é mais uma simples questão de saúde pública, já se tornou uma epidemia", afirma o pneumologista Ricardo Meirelles, coordenador nacional de controle de tabagismo, do Inca.
O tema será debatido pelo médico durante o 1ª Simpósio Internacional sobre Tabagismo, que começa amanhã (03), no Rio. Meirelles, que coordenará uma mesa redonda tendo como tema os fumantes passivos, explica que dos seis tipos de câncer que mais causam mortes no Brasil, metade deles (pulmão, colo de útero e esôfago) tem o cigarro como um dos seus fatores de risco.
O pneumologista cita como exemplo o câncer de pulmão: 90% dos casos registrados tem o fumo como principal fator de origem. Esse ano, o Inca calcula que aproximadamente 13 mil pessoas deverão morrer em consequência da doença. "O risco de morte por câncer de pulmão é 22 vezes maior entre os fumantes do que entre não-fumantes", explica.
Apesar dos avanços terapêuticos recentes, apenas 13% dos pacientes que forem acometidos por esse tipo de câncer estarão vivos cinco anos após o diagnóstico. O risco para câncer de boca
laringe e do esôfago chega a ser, respectivamente, 30, 20 e 10 vezes maior para os fumantes. No total, o cigarro está ligado às origens de tumores malignos em oito órgãos - pâncreas, rins, bexiga, além dos já citados. "A melhor forma de combater o câncer é a prevenção", afirma Meirelles. Dependente - Além do envelhecimento da população, o principal fator isolado de desenvolvimento do câncer é o tabaco. Diretor do Centro Internacional de Política de Saúde Mental e Pesquisa da Organização Mundial de Saúde (OMS), o psiquiatra Jorge Alberto Costa e Silva alerta que 95% das pessoas que começam a fumar antes dos 20 anos tornam-se dependentes. Em relação ao álcool, por exemplo, essa porcentagem é de 12% e a cocaína, 50%.
Costa e Silva explica que um ex-fumante deixa de se tornar dependente da nicotina sete anos depois de largar o cigarro. Esse é o período que os circuitos das células nervosas afetadas pela nicotina demoram para se normalizar. Para se ter uma idéia, diz o médico, no dependente de heroína, o prazo é de cinco anos e no de cocaína, três anos. Atualmente, segundo dados da OMS, existem no mundo 1,2 bilhão de dependentes de nicotina - o que representa um terço da população adulta do planeta.
O número de óbitos por tabaco é de 3 milhões de pessoas por ano. Se a atual tendência de consumo não for revertida, a OMS estima que, a partir de 2000, o fumo será responsável por 10 milhões de mortes por ano - dos quais 70% em países em desenvolvimento. No Brasil, os dados oficiais são muito defasados. O Ministério da Saúde e o próprio Inca trabalham com informações levantadas em 1989, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Naquela época, haviam no País 30,6 milhões de fumantes, dos quais 31.946 eram crianças de 5 a 9 anos; 396.767, de 10 a 14 anos; e 2.341.151, adolescentes entre 15 e 19 anos. "Quanto mais cedo a pessoa se torna fumante
mais difícil será para ela largar o vício", afirma Costa e Silva. "Por isso, toda a política de saúde deve estar voltada para os jovens, que é o principal alvo da propaganda".
O médico defende medidas drásticas contra a indústria do tabaco, como a permissão da veiculação de comercias apenas em horários noturnos - de preferência depois das 22 horas - e, a longo prazo, uma política de governo que priorize a substituição da produção do fumo no País por outras culturas rentáveis. Hoje, o Brasil é o principal exportador de tabaco do mundo, que gera aos cofres do governo só em impostos algo em torno de US$ 500 milhões.


