Lima, 08 (AE) - Desde o "autogolpe" de 5 de abril de 1992, o governo de Alberto Fujimori desenvolveu uma técnica simples e eficiente para manter alta sua popularidade e apresentar-se sempre como favorito nas eleições.
Depois de agir com firmeza para subjugar as guerrilhas esquerdistas que espalhavam o terror e dominar uma hiperinflação de 3.000% ao ano, o governo peruano empenhou-se em achar meios de frear as críticas veiculadas por jornais, revistas, rádios e tevês.
Não precisou, para isso, lançar mão de ações explícitas, como submeter a mídia a censura prévia ou decretar leis de imprensa. Foi mais sutil. Formalmente, os meios de imprensa são livres. Na prática, a realidade é diferente.
"O que temos é uma ditadura feroz, que tenta de todas as formas amordaçar as redações", disse à Agência Estado o jornalista Alberto Borea, um dos proprietários do jornal de oposição Liberación, cuja existência está ameaçada por causa de uma sentença que determina a perda de sua única rotativa.
"É uma anomalia jurídica, uma sentença desproporcional, para calar-nos."
"Quando o Executivo controla os outros poderes, principalmente o Judiciário, tem um instrumento eficiente para controlar toda a sociedade, sem precisar da força física", analisa o diretor-executivo do Instituto de Imprensa e Sociedade
Jorge Salazar Cussiánovich.
Tudo começou com uma disputa jurídica entre pessoas jurídicas - a empresa proprietária do jornal e a proprietária de um prédio que o diário alugava -, que se arrasta há cinco anos. A máquina foi embargada como garantia de pagamento de uma dívida. A empresa editora, porém, ficou de posse do bem como depositária.
"A decisão judicial é desproporcional e inoportuna", diz o gerente-geral do Liberación, Angel Delgado. "Por que a sentença saiu só agora, às vésperas da eleição?"
Na quinta-feira, um grupo de universitários, sindicalistas e ativistas de movimentos de defesa de direitos humanos e liberdade de imprensa formaram uma cadeia humana em torno do prédio do jornal para evitar que a máquina fosse lacrada.
No mesmo dia, uma descarga elétrica qualificada de "incomum" pelos técnicos do jornal danificou a rotativa, fazendo com que a edição do dia seguinte circulasse com 32 páginas a menos. A companhia elétrica, recém-privatizada, recusou-se a pronunciar-se sobre o incidente.
O caso mais rumoroso de assédio à mídia ocorreu em 1996. O proprietário do Canal 2, Baruch Ivcher, foi destituído da presidência da tevê depois de uma queda-de-braço com o governo.
Após apresentar um documentário desfavorável a Fujimori, Ivcher, nascido em Israel, passou a ter problemas com o departamento de imigração e naturalização peruano. Os agentes federais alegaram haver irregularidades no seu processo de naturalização e cassaram-lhe a cidadania peruana.
Como a Carta de 1993 proíbe estrangeiros de possuir emissoras de rádio e tevê, ele perdeu a propriedade e foi expulso do Peru. Hoje, o Canal 2 está nas mãos dos ex-sócios de Ivcher, muito mais simpáticos ao governo. A emissora foi um dos seis canais abertos de tevê a transmitir ao vivo e na íntegra as seis horas do comício que encerrou a campanha de Fujimori.
O Canal N, tevê a cabo do jornal El Comercio, também sentiu o peso da mão controladora do governo. Na quinta-feira, quando seus operadores ligaram uma câmera no Centro Internacional de Imprensa, um assessor do instituto Datum divulgava para jornalistas estrangeiros uma pesquisa na qual Alejandro Toledo aparecia na frente do candidato-presidente Fujimori.
O Jurado Nacional de Eleições decidiu multar a emissora em 990 mil sóis (quase US$ 300 mil) por violar a lei que proíbe a divulgação de pesquisas no país às vésperas das eleições. Ante a reação do restante da mídia, a multa caiu para 290 mil sóis.
Muitos viram na sanção uma represália a El Comercio, que levantou dúvidas sobre a autenticidade da lista de assinaturas anexadas ao registro da candidatura do Partido Peru 2000, um dos quatro integrantes da Aliança Peru 2000, de Fujimori.
"Sabíamos que as assinaturas tinham sido fraudadas havia vários meses, mas não podíamos publicar nada porque não tínhamos provas", disse à AE Júlia María Urrunaga, editora do Departamento de Investigações Especiais do jornal.
"Quando tivemos a confirmação, graças a uma testemunha que confessou ter participado da fraude, não hesitamos em publicar, embora soubéssemos que as sanções poderiam vir."
Osvaldo Carpio, assessor do prefeito de Lima e candidato presidencial, Alberto Andrade, ressalta que o governo injetou nos últimos três anos mais de US$ 90 milhões em tablóides sensacionalistas usados como meio de difamar opositores de Fujimori.

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