Lima, 11 (AE) - O candidato oposicionista à presidência do Peru Alejandro Toledo estava no meio de uma entrevista coletiva para jornalistas estrangeiros quando recebeu a notícia de que o presidente e candidato ao terceiro mandato consecutivo, Alberto Fujimori, estava a 0,21 ponto porcentual de alcançar a vitória no primeiro turno da eleição de domingo. Cerca de uma hora depois, o resultado parcial oficial confirmou a informação. Com 90,82% dos votos apurados, Fujimori tinha 49,79% dos votos válidos, enquanto Toledo obtinha uma votação de 40,39%.
Ao tomar ciência das novas cifras, o tom das declarações de Toledo, que já apontavam para a iminência de uma crise política de consequências imprevisíveis para o país, passaram a traçar um quadro ainda mais catastrófico. De acordo com o candidato, que antes se disse disposto a liderar uma "resistência popular pacífica", oficiais militares de diversas cidade do país estavam mobilizando quartéis para impedir uma revolta popular. Citou especificamente as cidades de Loreto e Contamana.
Mais tarde, o vice-presidente da chapa de Toledo, Carlos Ferrero, anunciou que o candidato da oposição tinha enviado uma carta a Fujimori, solicitando uma reunião, o mais rápido possível, para estabelecer "um diálogo que evite uma revolta popular".
Após a leitura da carta, Ferrero acrescentou: "Estou autorizado a anunciar que, nesse mesmo momento, o candidato Alejandro Toledo está em contato com os altos mandos militares, discutindo a delicada situação pela qual passa o país."
"Temos a informação de que um estado de emergência pode ser decretado ainda esta noite", afirmou Toledo na entrevista, sem dar detalhes.
"Posso dizer-lhes que não será Alejandro Toledo o homem a liderar os peruanos por meio da violência, porque isso não corresponderia à minha vocação democrática. Mas não esperarei nem um segundo para encabeçar um movimento pacífico para defender o Estado de Direito e a democracia."
Toledo começou a entrevista retificando suas declarações do dia anterior, de que não reconheceria o resultado da contagem dos votos do Onpe, fosse ele qual fosse. Disse que ele e os outros candidatos do que chamou "pólo democrático" não aceitariam nenhum resultado oficial que não coincidisse com as contagens paralelas dos três principais institutos de pesquisa do país - o Instituto Apoyo, a Companhia Datum e a empresa CPI - que indicavam a necessidade de um segundo turno, em junho, para decidir quem ocupará a presidência do Peru nos próximos cinco anos.
A Associação Cívica Transparência, organização não-governamental que se dispõe a fiscalizar a justiça da eleição, também realizou uma contagem paralela que indicava um segundo turno. Do mesmo modo, o chefe da Missão de Observação Eleitoral da Organização dos Estados Americanos (OEA), Eduardo Stein, disse que estudos realizados pela missão, com base nas atas eleitorais, confirmavam a necessidade de uma segunda votação.
Ao lado de Toledo, na sala de conferências do centro de imprensa internacional, estavam os candidatos Alberto Andrade (atual prefeito de Lima), Máximo San Román, Abel Salinas, Víctor García Belaunde e Luis Castañeda.
"Em vários pontos do Peru estão-se organizando vigílias cívicas para garantir que a vontade do povo seja respeitada", assegurou. Toledo exigiu também, entre as condições para que reconhecesse um resultado que o classificasse para o segundo turno, que tivesse condições de acesso às redes de tevê iguais às de Fujimori.
O economista e ex-engraxate de 54 anos fez referências às declarações feitas na noite anterior por Fujimori, que o acusou de estar acirrando os ânimos e incitando a população à violência. "Lamento que o presidente Fujimori não tenha estendido sua mão a um futuro de paz compartilhada. Em vez disso
preferiu lançar ameaças de extinção aos partidos que não obtiveram mais de 5% dos votos nas eleições de domingo." A Constituição peruana prevê a dissolução de movimentos que não atinjam esse limite de representatividade.
Ao mesmo tempo, diante do Hotel Sheraton, onde fica o centro de imprensa, estudantes da Universidade Católica começavam a concentrar-se. Em meia hora, pelo menos 2.500 pessoas gritavam slogans contra Fujimori e o Onpe. Toledo encerrou a entrevista anunciando que iniciaria em seguida uma reunião de emergência com os outros candidatos para acertar um "plano de contingência".
Acrescentou que, caso fosse anunciada a vitória de Fujimori no primeiro turno, não estava descartada a possibilidade de os candidatos ao Congresso eleitos por seu partido, o Peru Possível
não tomarem posse. Segundo as pesquisas, esse movimento político obterá 27 das 120 cadeiras do Congresso.
No final da noite, Toledo falou a mais de 30 mil pessoas que estavam na frente do hotel havia várias horas. Ele conclamou a população a participar de "uma resistência pacífica contra a fraude". A maioria dos manifestantes era de estudantes universitários, mas também havia muitos sindicalistas. "Vamos caminhar pacificamente e esperar que a polícia peruana entenda que vocês são estudantes, e não terroristas."
Domingo à noite, diante de uma concentração semelhante, Toledo exortou a multidão a marchar na direção do palácio do governo. O protesto terminou com a ação da polícia, que dispersou a multidão.
"Vocês conhecem futebol e posso dizer que o que estamos jogando aqui é um jogo injusto, no qual o governo é o dono do campo, nomeia o árbitro, estabelece o tempo de jogo e muda as regras da forma que melhor lhe convém", disse Toledo, justificando a necessidade da pressão popular para evitar uma possível fraude.
A possibilidade de que os resultados estejam sendo manipulados foi confirmada pelo diretor-presidente do Instituto Apoyo, Manuel Torrado. Segundo ele, só alguma irregularidade poderia fazer com que a contagem paralela da empresa, que dava 48% para Fujimori, tenha margem de erro superior a 1 ponto porcentual.

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