Fugitivos da Febem se escondem em favela em frente da unidade Tatuapé
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segunda-feira, 13 de setembro de 1999
Por Gabriela Carelli 
São Paulo, 14 (AE) - Para os fugitivos da Fundação Estadual para o Bem-Estar do Menor (Febem), basta atravessar a rua para encontrar um lugar seguro. A Favela Jequitinhonha, em frente do portão do Complexo Tatuapé, na Rua Nelson Cruz, zona leste, serve de abrigo para os menores que escapam nas rebeliões. Hoje de manhã, três - dois que fugiram do Complexo Imigrantes no domingo e outro que deixou o Tatuapé há um mês - rodeavam as entradas para ter informações do motim de ontem.
A proximidade do esconderijo não amedronta os infratores. Ele não ficam "mocozados" nos casebres e circulam pela área com muita segurança. A escolha do lugar tem razão: lá os menores recebem ajuda dos "malucos" da área. Conhecem os traficantes e bandidos nas pequenas fugas noturnas para roubos e furtos. Por mais absurdo que possa parecer, o ponto de encontro da garotada é a porta da instituição. Além do flagrante da reportagem, a informação foi confirmada por um ex-monitor do complexo, identificado como Léo, e por membros do Conselho Tutelar, que visitaram hoje a Febem Tatuapé. "Segundo os menores, dezenas de outros meninos fugitivos moram ali", contou a conselheira Elizete Rossoni Miranda. A migração de menores da Imigrantes para a favela no Tatuapé também tem sua lógica: as amizades. "Eles se conhecem nas internações e ajudam uns aos outros". O presidente da Febem, Guido de Andrade, limitou-se a dizer que vai informar a Polícia Militar sobre o fato. Perigo - Muitos menores são perigosos. Encostado num banco e beirando as grades estava A.L., de 15 anos. Ele está na favela desde julho, quando fugiu durante um motim. Faz questão de enfatizar o jeito malandro de quem foi preso por assalto à mão armada e tentativa de homicídio. "Na frente da Febem é mais seguro do que em casa", garante ele, com experiência. Já fugiu da instituição cinco vezes e só foi recapturado porque voltou para a família. A última internação foi decorrente do assalto a um Vectra, em um semáforo da Avenida Giovanni Gronchi, no Morumbi, zona sul.
"O mano da Paraisópolis (favela na zona sul) me daria R$ 2 mil pelo carro", conta. "Não tenho dó; vou lá e enquadro". A. afirma que está "limpo" no momento. "Se estou fazendo algo é curtir um Bob Marley (maconha)". L.F.S, de 18 anos, e K.S., de 16, escaparam da Febem Imigrantes no domingo e também estão morando na favela no Tatuapé. L. foi para a Febem em 1.º de abril. "Corri para a rodovia, entrei na favela Diadema e peguei dinheiro para a condução". L. foi detido por tentativa de homicídio e agressão. "Minha mina me deu um tapa na cara e eu tentei matá-la com uma faca".
A história de K. é diferente. Seu crime foi pegar doces e bebidas de um supermercado. "Entrei com um pé de cabra, à noite". Está na favela até ter coragem de ir para a casa da tia
na Vila Ema, na zona leste. "Se eu for para casa eles me acham", diz, confirmando a informação de que a porta da Febem é um local bem seguro para os fugitivos. Fugas - Hoje, às 8h30, 14 adolescentes fugiram do Complexo Tatuapé. Não houve motim e 7 foram recapturados. Ontem à noite, 23 menores desse complexo fugiram após pequena rebelião e 7 já foram reconduzidos ao local.


